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O preço de falar no Equador

No Equador, o custo de discordar aumenta, enquanto o medo, a pressão e a autocensura ameaçam o debate democrático.

O silêncio no Equador não é por acaso, é resultado de uma estratégia. Enquanto o país enfrenta demissões no setor público, aumento dos preços e uma escalada contínua da violência, a oposição política e social parece ter se diluído. Mas não se trata de apatia. É outra coisa: um ambiente em que discordar começa a ter um custo.

Os dados ajudam a entender o clima. Segundo a organização Fundamedios, somente em 2025 foram registrados mais de 200 ataques contra jornalistas, muitos deles atribuídos a agentes do Estado. Não se trata só de agressões físicas, mas de um ecossistema de pressão: processos judiciais, intimidação digital, restrições ao acesso à informação e discursos oficiais que deslegitimam a crítica. Paralelamente, vários profissionais da comunicação optaram pelo exílio ou por moderar o tom de suas investigações, como no caso conhecido da jornalista Alondra Santiago, hoje exilada no México.

O problema não é apenas midiático. É político. Quando a crítica se torna arriscada, a oposição deixa de ser uma função democrática e se transforma em um ato de resistência individual. Nesse contexto, decisões que em outro momento teriam gerado mobilização, como o aumento de impostos, reformas econômicas impopulares ou mudanças em políticas públicas sensíveis, hoje passam com uma reação social muito mais fraca do que o esperado.

Durante o governo de Daniel Noboa, o discurso sobre ordem e segurança ocupou o centro do debate público. E não se trata de um assunto menor: o Equador atravessa uma crise de violência sem precedentes recentes. No entanto, essa narrativa também tem servido para ofuscar outras discussões urgentes. Quando a prioridade absoluta é a segurança, tudo o mais parece secundário, inclusive o direito de questionar.

A isso se soma o uso cada vez mais frequente de ferramentas institucionais em cenários políticos. Isso não é novidade na região, mas no Equador começa a se fazer sentir com mais força: denúncias contra atores críticos, processos judiciais acionados seletivamente e uma percepção crescente de que a justiça pode ser utilizada como mecanismo de pressão. Nem sempre é necessária uma condenação; muitas vezes basta o processo em si, como no caso do prefeito de Guayaquil, Aquiles Alvarez, principal opositor ao governo e hoje preso em decorrência de um processo judicial de muito baixa credibilidade.

Paralelamente, o ecossistema midiático também mudou. A concentração da mídia, as dificuldades econômicas dos veículos independentes e as pressões indiretas reduziram os espaços para críticas sustentadas. Alguns veículos moderaram sua linha editorial; outros desapareceram ou perderam capacidade de influência. E nas redes sociais, embora a voz seja mais livre, também é mais fragmentada, mais volátil e, muitas vezes, mais vulnerável a campanhas de desinformação.

O resultado é um fenômeno silencioso, mas profundo: a normalização do silêncio. Não porque as pessoas não tenham opinião, mas porque começam a avaliar quando, como e até que ponto expressá-la. É um cálculo cotidiano. Vale a pena opinar? Que consequências isso pode ter? Quem está ouvindo? Essa dúvida constante é, por si só, um sintoma.

Historicamente, as democracias não se enfraquecem apenas pela falta de eleições, mas pela erosão progressiva de seus contrapesos. A oposição política, o jornalismo independente e a crítica cidadã não são meros enfeites do sistema, são sua espinha dorsal. Sem eles, o poder deixa de ser questionado e passa a operar sem atritos.

No Equador, esse processo não é total nem irreversível, mas é visível. E, como todo processo político, não ocorre de repente. Avança passo a passo, decisão após decisão, silêncio após silêncio. O mais preocupante não é uma medida específica, mas o acúmulo de pequenos sinais que, juntos, configuram uma mudança de clima.

Porque, no fim das contas, a maior conquista de qualquer estratégia de controle não é censurar abertamente, mas fazer com que as pessoas se autocensurem. Que a crítica se reduza por si só. Que a discordância se torne incômoda. Que o silêncio pareça normal. E aí está o ponto de ruptura. Pois quando uma sociedade deixa de questionar, não significa necessariamente que concorde; ela pode estar assustada, cansada ou resignada. Mas nenhuma dessas condições é compatível com uma democracia saudável.

Por isso, o que está em jogo não é uma postura política específica nem um governo em particular. É algo mais básico: a possibilidade de expressar opiniões sem medo. A capacidade de discordar sem pagar um preço desproporcional. O direito de incomodar o poder.

O Equador não precisa de menos vozes. Precisa de mais. Mais debate, mais crítica, mais incômodo democrático. Porque, se há algo que a história demonstra, é que os direitos que não são exercidos acabam se perdendo.

E este não é o momento de ficar calado.

Autor

Socióloga e mestre em Desenvolvimento Local e Políticas Públicas pela Universidade Técnica Particular de Loja, Equador. Analista política e social, especializada em gestão pública, desenvolvimento territorial e comunicação política.

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