O Dia Internacional dos Cuidadores oferece uma oportunidade inigualável para colocar o debate sobre essa tarefa no centro das atenções. A data não deve se limitar a celebrar quem cuida, mas deve servir para perguntar quanto os Estados, as empresas privadas, as famílias e as sociedades investem para garantir que esse trabalho seja realizado com direitos.
Quando analisamos a realidade de quem trabalha nesse setor, os números revelam uma forte falta de proteção. Segundo o relatório “Quem cuida? Como apoiar e reconhecer quem cuida de idosos na América Latina e no Caribe”, elaborado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID, 2025), na região, cuidar de um idoso é um trabalho essencial, mas quem o realiza recebe, em média, uma renda equivalente a 90% do salário mínimo. Enquanto isso, a população que trabalha em geral ganha 1,9 vez esse valor. A comparação revela um paradoxo: uma tarefa indispensável para sustentar a vida e o bem-estar de milhões de pessoas é realizada, com frequência, em condições precárias.
A média regional resume a desigualdade: quem trabalha com cuidados recebe menos do que o piso legal de renda, enquanto o restante da população trabalhadora se situa amplamente acima disso. Não se trata só de uma diferença salarial. As cuidadoras remuneradas costumam trabalhar em tempo parcial e enfrentam a falta de contratos, de proteção social e de oportunidades de capacitação (BID, 2025).
Para entender a origem dessa precariedade, é preciso lembrar que grande parte do trabalho de cuidados nem sequer é remunerado. Embora não sejam a mesma coisa, o trabalho de cuidados não remunerado e o remunerado fazem parte de um mesmo sistema, e a escassa valorização do primeiro explica, em grande medida, a desvalorização do segundo. Uma atividade historicamente considerada uma responsabilidade “natural” das mulheres transforma-se facilmente em um emprego mal remunerado quando entra no mercado de trabalho.
Cozinhar, limpar, acompanhar um idoso, ajudá-lo a se vestir ou agendar uma consulta médica são atividades indispensáveis para o funcionamento dos lares e de toda a economia. No entanto, quando realizadas dentro da família, costumam ficar de fora das contas do trabalho e recaem desproporcionalmente sobre as mulheres.
Esse trabalho funciona como um enorme subsídio invisível. Na América Latina e no Caribe, o trabalho doméstico e de cuidados não remunerado equivale a aproximadamente 21% do produto interno bruto, e as mulheres geram cerca de três quartos desse valor, segundo o PNUD. Em outras palavras, os lares — e especialmente as mulheres — absorvem gratuitamente custos que, de outra forma, deveriam ser assumidos pelo Estado, pelo mercado ou pelas famílias por meio de serviços remunerados.
O termo “subsídio” de gênero é pertinente porque esse trabalho não remunerado permite que outras pessoas estudem, tenham empregos remunerados e participem da economia. Ele também reduz a demanda por serviços públicos e privados. Mas quem dedica esse tempo paga um preço: menos oportunidades de trabalho, renda menor, mais dificuldades para ter acesso à previdência social e maior exposição à pobreza na velhice.
Por sua vez, quando o cuidado é prestado de forma remunerada, a precariedade no trabalho também não se distribui aleatoriamente. A força de trabalho remunerada é composta majoritariamente por mulheres de meia-idade. Além disso, o setor é fortemente marcado pela desigualdade racial e étnica: mais da metade das trabalhadoras são afrodescendentes e cerca de 3% pertencem a povos indígenas. Mulheres migrantes e de setores de baixa renda também estão super-representadas. Aquelas que enfrentam maiores barreiras no mercado de trabalho acabam assumindo os empregos menos protegidos e menos bem remunerados.
A situação é ainda mais complexa se considerarmos que as famílias de menor renda dedicam uma proporção muito maior de seu tempo ao trabalho doméstico e aos cuidados não remunerados, o que reforça o ciclo da pobreza, conforme revela o relatório “A sociedade do cuidado: horizonte para uma recuperação sustentável com igualdade de gênero”, da CEPAL.
O trabalho de cuidados é indispensável, mas tanto quem precisa dele quanto quem o presta não está recebendo o apoio adequado. Diante dessa realidade, surge um consenso crescente: é urgente reconhecer, reduzir e redistribuir os cuidados. Isso implica, por um lado, ampliar a oferta de serviços públicos e promover a corresponsabilidade entre homens e mulheres. Por outro lado, significa transformar radicalmente as condições daqueles que trabalham no setor.
O envelhecimento da população tornará essa agenda inevitável. Nas próximas décadas, a demanda por cuidados de longa duração crescerá rapidamente. No entanto, não haverá como satisfazê-la se não forem oferecidos salários dignos, empregos formais e condições atraentes para construir uma força de trabalho estável na área de cuidados de longa duração.
Reconhecer o valor do cuidado exige superar uma ideia persistente: a de que cuidar é uma disposição natural das mulheres e, por essa razão, um trabalho que pode ser mal remunerado ou realizado sem remuneração. Cuidar é uma atividade socialmente necessária, com responsabilidades concretas e efeitos diretos sobre a qualidade de vida das pessoas.
Uma sociedade que precisa de cuidados deve reconhecer quem os presta. Enquanto os cuidadores continuarem ganhando menos do que o salário mínimo, a região manterá uma contradição difícil de ignorar. O trabalho que permite sustentar a vida continuará sendo indispensável para todos, mas insuficiente para sustentar dignamente quem o realiza.










