Nas eleições presidenciais brasileiras deste ano, as campanhas estão se dirigindo com mais força às mulheres, atribuindo-lhes um papel central nas suas estratégias eleitorais. Ao mesmo tempo, elas continuam sub-representadas no poder político. Como demonstram pesquisas de gênero e política, as mulheres constituem a maioria do eleitorado brasileiro, mas permanecem em minoria nos Parlamentos, nas direções partidárias, nos governos e nas principais instituições do Estado.
Essa discrepância tem relevância particular num país como o Brasil, onde a desigualdade de gênero se cruza com a desigualdade econômica e racial. As mulheres, sobretudo as mulheres negras e pobres, são as que mais sofrem violência doméstica, as que têm menor acesso à justiça, e as que continuam ganhando menos por trabalho igual. Instrumentalizar essa pauta apenas para fins eleitorais, sem lhe corresponder uma política pública consistente, tem um custo social muito alto.
Não é de hoje que as questões de gênero ocupam um papel central na opinião pública. A campanha eleitoral de Dilma Rousseff, em 2010, foi marcada pela instrumentalização do aborto, Jair Bolsonaro instrumentalizou e se beneficiou de falsos boatos envolvendo questões de gênero e sexualidade. Desde então, a “ideologia de gênero” passou a integrar o vocabulário político de parcela significativa da extrema direita brasileira.
A novidade está na forma como as mulheres passaram a ser mobilizadas em 2026. Se, durante anos, o gênero foi sobretudo um instrumento de polarização moral, o que se observa agora é a explicitação e a simultaneidade: os dois lados, ideologicamente opostos, constroem planos e porta-vozes femininas ao mesmo tempo, movidos por sondagens em tempo real. Essa mudança não resulta de uma conversão dos partidos à agenda da igualdade, mas da percepção, reforçada pelas sondagens, de que o voto feminino pode ser decisivo numa eleição altamente polarizada.
Os dados
Apesar de ter cotas de candidatura e reserva proporcional de recursos do Fundo Eleitoral, o país continua entre aqueles com menor representação parlamentar feminina do mundo, segundo os dados mais recentes da União Interparlamentar, na 138ª posição entre cerca de 180 parlamentos, com 17,2% de mulheres na Câmara dos Deputados e 18,5% no Senado. Um estudo recente de Clara Araújo e Eduardo Ramos, publicado este ano na revista Dados, ajuda a explicar o porquê: ao mapear toda a composição das executivas partidárias brasileiras entre 2018 e 2022, os autores mostram que as mulheres ocupavam apenas 20% desses órgãos nacionais em 2018, subindo para 22% em 2022; nas executivas estaduais, o número foi de 25% para 30%. Vale notar, contudo, que a presença de mulheres nesses cargos de decisão teve um efeito positivo sobre o financiamento e o lançamento de candidaturas femininas, ainda que estatisticamente tímido, e a existência formal de secretarias de mulheres dentro das executivas, pensadas para funcionar como canal de pressão interna, não teve impacto significativo em nenhum dos anos analisados.
O que de fato separa os partidos, segundo o estudo, é a ideologia, e isso é o ponto central. Os de esquerda lançaram, em média, 5,5% mais candidaturas femininas do que os de centro em 2022 e destinaram entre 6% e 9% a mais de financiamento a candidatas. Os de direita, também os menos institucionalizados, com 81% dos diretórios estaduais “provisórios” em 2022, contra 21% entre os de esquerda, tiveram associação negativa e estatisticamente relevante com o lançamento de candidaturas femininas, mas não apresentaram efeito significativo sobre o financiamento. A ciência política tem mostrado que homens e mulheres participam de redes de capital social diferentes, e são as redes masculinas, voltadas à esfera pública, que funcionam como capital político convertível em candidatura. Há, ainda, altos níveis de violência política de gênero no país e ameaças de morte fazem parte do cotidiano das poucas mulheres que conseguem acessar o poder. O assassinato da vereadora Marielle Franco, em 14 de março de 2018, tornou-se uma das expressões mais brutais e emblemáticas dessa violência.
Disputadas nas urnas, excluídas do poder: essa é a distância que define uma das principais características das eleições de 2026. Entretanto, a pergunta mais relevante para o futuro do país não é se as campanhas passaram a falar mais às mulheres, mas se essa centralidade eleitoral produzirá mudanças concretas na distribuição do poder e, consequentemente, na vida e nos direitos das mulheres. Entre os dois principais candidatos, Lula e Flávio, as possíveis respostas partem de lugares muito diferentes.
Uma questão ideológica
No campo da extrema direita, o protagonismo crescente de Michelle Bolsonaro não representa uma revisão da tradição política do bolsonarismo, mas responde às dificuldades dos candidatos do Partido Liberal (PL) junto do eleitorado feminino, identificadas de forma consistente por sucessivas sondagens desde 2022. Durante o governo Bolsonaro, a igualdade de gênero nunca constituiu prioridade estruturante da ação governativa; pelo contrário, a agenda foi marcada pela oposição a políticas de diversidade e pela utilização recorrente das “guerras culturais” como instrumento de mobilização. Entre 2020 e 2023, os recursos do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos destinados ao combate à violência contra a mulher tiveram uma redução de quase 90%.
A situação é distinta no campo liderado por Lula, como a história e os dados mostram. Desde 2003, os governos do Partido dos Trabalhadores (PT) construíram um conjunto substancial de políticas dirigidas às mulheres. Para mencionar algumas centrais, temos a Lei Maria da Penha e a criação da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres. No atual mandato, Lula recriou o Ministério das Mulheres em janeiro de 2023 e o orçamento discricionário bateu recordes. No mesmo período, o governo sancionou a Lei de Igualdade Salarial entre Mulheres e Homens (Lei 14.611/2023), assinou o Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios e retomou o Programa Mulher Viver sem Violência, com meta de chegar a 40 unidades da Casa da Mulher Brasileira até 2026. Editais especiais para promover a participação de mulheres também foram lançados em campos tão diversos como a ciência e o cinema.
Tal histórico, no entanto, não deve funcionar como salvo-conduto. A própria Emenda Constitucional que criou a cota de financiamento para candidatas, promulgada em 2022, incluiu uma anistia aos partidos que a haviam descumprido em eleições anteriores. Uma segunda tentativa de ampliar essa anistia, a PEC 9/23, foi aprovada pela Câmara dos Deputados em julho de 2024, com apoio de deputados do PT. O único partido de esquerda que orientou voto contra foi o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). Em outro exemplo, o governo Lula optou por indicar homens para vagas abertas no Supremo Tribunal Federal, apesar da mobilização de movimentos como o Mulheres Negras Decidem, que recomendavam a indicação da primeira mulher negra na história do tribunal.
Embora a esquerda tenha incorporado mais medidas concretas para que a igualdade de gênero avance, não apenas em discursos de campanha, mas no orçamento, na legislação e na vida cotidiana das mulheres, não dá para isentá-la de erros ou contradições. Ao mesmo tempo, não há equivalência entre os dois projetos políticos mais fortes na disputa deste ano. As mulheres nunca estiveram tão presentes nas campanhas eleitorais dos dois lados, mas a esquerda não deve responder a isso com recuos ou dúvidas sobre a centralidade dessa agenda. É a diferença ideológica na prática histórica, e não apenas a intensidade do discurso momentâneo de cada campanha, que deve orientar o escrutínio das promessas de 2026. Temos mais a ganhar do que a perder ao enfrentar de forma consistente as questões que dizem respeito à vida das mulheres, convocando-as à defesa de seus direitos e de sua autonomia.










