Há muitas coisas em jogo nas eleições deste domingo, 25 de outubro, no Brasil: democracia, direitos básicos, o futuro da Amazônia e a soberania nacional, para citar apenas alguns temas. No entanto, algo menos debatido, mas fundamental, é o futuro da transição energética justa na região.
O plano de Flávio Bolsonaro já anuncia: “vamos ajudar o mundo a realizar a transição energética”, ao mesmo tempo em que afirma que “vamos permitir a exploração de gás não convencional (fracking)”. Essas afirmações refletem as visões sobre a transição energética, não apenas de Bolsonaro, mas dos líderes da extrema direita que chegaram ao poder no último ciclo eleitoral. Caso vença, Bolsonaro terá via livre para implementar sua visão sobre a transição energética na região.
O que significa transição energética para a extrema direita latino-americana?
Todos os planos de governo da extrema direita, incluindo a direita radical, como Kast ou de la Espriella, e a direita conservadora de linha dura, como Fujimori ou Noboa, possuem uma seção específica sobre energia em seus planos de governo, com exceção de Milei.
A transição energética, como apontam Pablo Bertinat e Jorge Chemes, é um termo em disputa. A Declaração de Santa Marta, de abril de 2026, define a transição energética justa global como um processo de abandono dos combustíveis fósseis que não deixe ninguém para trás, respeitando o princípio das responsabilidades comuns, porém diferenciadas. A extrema direita parece propor uma visão de transição energética mais próxima do que certos ativistas ambientais têm chamado de “transação energética”.
Esse projeto implica, por um lado, não abandonar as energias fósseis, mas, pelo contrário, continuar e, em muitos casos, expandir sua produção. À semelhança de Donald Trump, tanto Milei quanto de la Espriella apostaram no fracking como motor econômico, promessa também adotada por Bolsonaro. Isso, somado às propostas de flexibilização da legislação ambiental, apresentadas como um processo de “desburocratização” ou “fast track” para projetos estratégicos, e à redução da capacidade de fiscalização do Estado, representa um grave perigo ambiental. De fato, na Argentina, a região de Vaca Muerta já sofre as consequências dessas decisões.
Alguns líderes da extrema direita apresentam a transição, que inclui o abandono dos combustíveis fósseis, de forma negativa e apontam para um aumento da insegurança energética, uma perda de competitividade no mercado e impactos negativos no crescimento de seus países. Por isso, preferem enfatizar a ideia de diversificação energética. Nesse sentido, eles defendem a importância de aumentar a exploração de energia fóssil e de não dar o que chamam de “um salto no vazio”, que seria abandoná-las.
O impulso às energias renováveis é apresentado por esses atores como uma vantagem comparativa para atrair investimentos internacionais. Em vez de transição, o que se busca é uma expansão da oferta para atrair indústrias que fazem uso intensivo de energia, mas querem parecer sustentáveis.
A maioria dos planos, incluindo o de Bolsonaro, coloca os recursos naturais — como terras raras, minerais críticos e energia limpa, a serviço dessas indústrias internacionais. Propõem a energia limpa (e não mais alternativa) como uma commodity a ser exportada, seja diretamente, como no caso dos biocombustíveis ou do hidrogênio verde, seja indiretamente, alimentando a descarbonização das indústrias extrativas globais ou por meio de datacenters. As consequências são um aprofundamento da reprimarização das economias, um aumento da dependência internacional e um retrocesso na resposta à crise climática.
Descarbonização energética
A América Latina é uma das regiões pioneiras na produção de energia renovável, segundo a Organização Latino-Americana e Caribenha de Energia (OLACDE). No entanto, a maior parte da energia elétrica renovável está ligada à energia hidrelétrica. Essa energia é afetada pela intensificação das secas relacionadas às mudanças climáticas, como demonstrou a crise de apagões no Equador em 2024. Assim, o aumento da produção de energias renováveis é necessário para garantir a segurança energética dos cidadãos da região e combater a pobreza energética, particularmente em áreas não interconectadas.
Esse aumento também é necessário para descarbonizar a matriz energética primária da região (destinada tanto ao setor elétrico, quanto aos transportes, à indústria, entre outros). Apesar dos esforços, o índice de renováveis na oferta primária total da região atingiu apenas 34,53% em 2024, segundo a OLACDE. Ou seja, a descarbonização dos setores de transporte e industrial (incluindo as agroindústrias) ainda é um desafio pendente para o qual precisamos de energia renovável. Assim, ampliar os usos da energia, atraindo setores de alto consumo energético, como os datacenters, afeta diretamente os planos nacionais de descarbonização.
A energia, inclusive a renovável, depende de recursos limitados (como terra ou água) e sua produção não está isenta de impactos socioambientais negativos. Portanto, estabelecer a diversificação como meta sem repensar os usos da energia e sem adotar critérios socioambientais mais claros posiciona a região como um espaço de colonialismo e extrativismo verde, sem qualquer consideração pela justiça climática.
No Brasil, do outro lado do espectro político, o plano de Lula da Silva em matéria de energia talvez seja um dos pontos fracos de sua agenda ambiental, particularmente sua ambivalência em relação à exploração de petróleo. No entanto, seu compromisso com a agenda climática, a democracia e sua disposição em promover a participação da cidadania fazem dele um governo que pode ser mais receptivo às demandas da sociedade civil por uma transição justa. E isso também o posiciona como um freio aos projetos de transição energética na região.










