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Eleições no Paraguai: setenta anos de hegemonia do Partido Colorado

Importantes analistas políticos que conhecem de perto a dinâmica eleitoral no Paraguai defenderam que as eleições do Paraguai em 2023 seria muito acirrado. Levantamentos apresentados por diversos institutos de pesquisa colocavam em dúvida se o Partido Colorado permaneceria no poder por mais 5 anos, mantendo uma hegemonia de sete décadas, ou se deixaria uma janela de oportunidade para outro grupo político.

Com quase todos os votos contabilizados pela autoridade eleitoral do país o resultado final já está definido: com uma vitória folgada de mais de 15 pontos percentuais de vantagem, o representante do Partido Colorado, Santiago Peña, será o governante de todos os paraguaios por mais um mandato presidencial.

Peña venceu um grupo bastante heterogêneo – o Concertación Nacional – que tinha como candidato o ex-deputado federal paraguaio Efraín Alegre. Ao alcançar o direito de ocupar o Palácio López – a sede da presidência do país – o conservador que já foi ministro da Economia sela a grande capacidade do seu partido em vitórias nacionais. 

O Partido Colorado teve como um de seus principais expoentes o ditador Alfredo Stroessner, que governou o Paraguai por quase 35 anos, figurando como um dos mais longevos governantes de toda a América Latina. A partir de 1989 quando a democracia retornou ao cotidiano paraguaio o mesmo partido venceu todas as eleições, com exceção da vitória do presidente Lugo que governou o país entre 2008 e 2012 e foi impedido de continuar o seu mandato por decisão do Legislativo Nacional paraguaio.

Embora o novo presidente seja considerado um político sem grande experiência administrativa é sabida a sua forte ligação com o ex-presidente Horácio Cartes que governou o país entre 2013 e 2018 e foi considerado como um nome controverso em razão de vários escândalos políticos e econômicos envolvendo a sua atuação no país. 

Diante das críticas apresentadas nas últimas semanas, que poderiam ser vantajosas para os seus adversários, Peña buscou apresentar-se como um candidato independente de seu principal apoiador. Dono de um discurso bastante conservador, o novo presidente enfrentará um contexto bastante difícil de ser contornado. A economia paraguaia apresentou, nos últimos anos, resultados que colocam as autoridades do país em um estado de muita preocupação. A população sofre com tão negativos índices econômicos.

É importante ressaltar que embora tenha sido vencido na corrida eleitoral de 30 de abril de 2023 o líder de direita Payo Cubas (Cruzada Nacional) também apresentou-se como um candidato que ultrapassou todas as exceptivas a ele direcionadas. Apresentando-se como um representante antissistema Cubas foi, em algumas circunstâncias, comparado à Donald Trump e ao ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro. Ao conquistar 23% dos votos válidos o candidato acendeu o alerta de que a direita não está sufocada na América Latina e que há chances de ampliar a polarização política no país nos próximos anos.

Ademais evidencia-se dois pontos muito relevantes da política exterior paraguaia que serão tópico de decisão do novo presidente. O primeiro deles refere-se à reconfiguração do Tratado assinado em 1973 entre o Brasil e o Paraguai referente à Usina de Itaipu. Peña deverá negociar novos termos do Acordo com o presidente Lula, do Brasil, que foi, inclusive, um dos primeiros a parabenizar o candidato eleito por sua vitória.

O segundo tópico diz respeito à posição paraguaia de ser o único país da América do Sul a legitimar as demandas de Taiwan, posicionando-se contra a dominação da ilha pelos chineses. Com Peña esta decisão deve ser mantida, podendo atrapalhar os fluxos comerciais da China com paraguaios e demais parceiros comerciais.

O Paraguai é signatário do Tratado Constitutivo do Mercosul – o Tratado de Assunção – e negocia em coletividade com o Brasil, o Uruguai e a Argentina uma série de acordos comerciais extrabloco. Embora Peña não seja um crítico da parceria que ultrapassa 30 anos de duração as projeções do bloco podem variar a depender das diretrizes estabelecidas pelo novo governo.

Autor

Professor de Relações Internacionais no IBMEC-BH. Doutor em Ciência Política pela UFMG. Membro da Conferencia Americana de Organismos Electorales Subnacionales por la Transparencia Electoral (CAOESTE).

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