A fragilidade da segunda onda de governos de esquerda na região

Já há alguns anos, a ideia de uma segunda onda de governos de esquerda na América Latina parecia evidente. O retorno ao poder do MAS na Bolívia (2020), após o confuso fim do terceiro governo de Evo Morales; a eleição de Boric no Chile (2021), após a violenta explosão social durante o segundo governo de Piñera em 2019; e a eleição de Castillo no Peru (2021), precedida por quatro presidentes e dois impeachments em um período de apenas quatro anos; somados aos governos de López Obrador no México e Fernández na Argentina, compunham o que para muitos representava o início de um novo ciclo de governos de esquerda na região. Mas, dois anos depois, e apesar do retorno ao poder de Lula no Brasil e do triunfo histórico da esquerda colombiana com a eleição de Gustavo Petro, esse novo ciclo está mostrando dificuldade para se consolidar como movimento regional. 

Esse novo ciclo ainda está longe da estabilidade e do alcance geográfico do primeiro ciclo de governos de esquerda durante a primeira década do século. E pelo menos três fatos constatam essa dificuldade: o impeachment de Castillo no Peru; a derrota do projeto de reforma constitucional chileno respaldado pelo presidente Boric, que foi seguido pela eleição de uma nova Assembleia Constituinte com maioria de representantes da oposição; e a evidente perda de apoio popular ao governo Fernández na Argentina, confirmada pela queda para o terceiro lugar nas primárias de agosto passado.

Muito já foi escrito sobre a diferença entre o contexto atual de incerteza econômica internacional em relação à bonança econômica da primeira década do século, graças ao alto preço das commodities que muito beneficiou os governos da chamada “maré rosa”. Essa diferença, somada às múltiplas crises geradas em decorrência da pandemia de Covid-19, dificultou o atendimento das demandas dos cidadãos pelos novos governos de esquerda. Isso levou esses governos, em parte, a sofrer uma maior fragilidade.

A visão de uma segunda maré rosa na América Latina resultou, pelo menos no caso de alguns dos países mencionados, de uma leitura simplificada da complexidade dos sistemas políticos que emergiram das últimas eleições. No Peru, dada a pequena margem de diferença nas eleições presidenciais de 2021 – menos de 50.000 votos – e a falta de apoio legislativo, dificilmente se poderia dizer que o país havia feito um giro à esquerda com a eleição de Castillo. Pelo contrário, desde o primeiro dia ficou claro que seria difícil para o novo presidente obter apoio para liderar o país e concluir seu mandato, especialmente devido à instabilidade política do Peru durante os quatro anos precedentes.

No caso do Chile, a fragmentação do sistema político na última eleição também não justificou a leitura de uma reviravolta política no país. Lembremos que Boric foi o segundo candidato mais votado no primeiro turno das eleições, sendo superado pelo candidato da extrema direita, José Antonio Kast, e que a aliança política do presidente eleito obteve pouco mais de 20% dos deputados.  

Entretanto, o mesmo argumento não pode ser aplicado a todos os casos. O governo Fernández, na Argentina, contava, no início de seu mandato, com o respaldo de quase metade da Câmara dos Deputados e com a maioria absoluta do Senado. Seu desgaste político, excluídos os fatores externos já mencionados, pode, portanto, ser atribuído a uma gestão ineficiente, especialmente na condução da economia.

Mas a fragilidade política dos presidentes e a rápida perda de apoio político não é uma característica exclusiva dos novos governos de esquerda. Isso também afeta os governos de direita. A crise política do governo Lasso no Equador, que levou a uma convocação de eleições gerais antecipadas com apenas dois anos de mandato, é um exemplo disso. De fato, se há uma nova onda ou maré política na América Latina, é a de um aumento significativo na fragmentação e polarização política, levando a presidentes eleitos com margens muito pequenas (Castillo, Lasso, Lacalle Pou e Lula em sua última eleição) e/ou governos eleitos sem maioria legislativa (os casos de Castillo e Lasso são os mais emblemáticos).

Em um contexto como o atual na América Latina, marcado pela alta polarização, essa configuração política dificulta a possibilidade de alcançar acordos amplos que garantam um governo com uma base relativamente ampla e que ofereça estabilidade. Sejam de direira ou de esquerda.  

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