A reação dos líderes latino-americanos à invasão russa

As tensões na fronteira leste da Ucrânia resultaram, em 24 de fevereiro, na invasão massiva pela Rússia. Durante as primeiras 48 horas de hostilidades, as reações dos governos do mundo não demoraram muito, sobretudo através das redes sociais. Os governos latino-americanos, em sua maioria, rejeitaram categoricamente o uso da força na resolução do conflito, no entanto, como era esperado, os autoritários da região fecharam fileiras em apoio à Rússia.

As vozes latino-americanas no Conselho de Segurança

Dentro da posição diplomática predominante de condenação da invasão, se destacam principalmente México e Brasil. Esses são membros não permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas e desde as primeiras horas desta quinta-feira 24 têm se reunido emergencialmente para gerar uma resolução que permita principalmente o cessar-fogo. Até o momento não foi alcançada, já que a Rússia exerceu o direito de veto, apesar de ser o único voto contra a resolução.

Nessas deliberações, tanto o porta-voz do representante do Brasil, Ronaldo Costa Filho, quanto a embaixadora mexicana, Alicia Buenrrostro, apesar das diferenças ideológicas de ambos os governos, estavam em sintonia sobre a rejeição do que chamaram de “flagrante violação ao direito internacional”. Ambos destacaram a importância do retorno às negociações, o cumprimento dos acordos de Minsk e advertiram para o custo humano que esta incursão armada causará.  Inclusive, a diplomata mexicana questionou o representante russo Vasili Alekseyevich Nebenzia de forma direta por ter assegurado várias vezes que a Rússia não invadiria a Ucrânia.

Além desses pronunciamentos, governos como Brasil, Colômbia, Equador e Peru coordenaram esforços, desde sexta-feira 25, para colaborar no trabalho logístico de evacuação de seus nacionais na Ucrânia ou nas nações da Europa Oriental.

Na América Latina, entretanto, deixou-se entrever os movimentos das potências enfrentadas. No mesmo dia em que o bombardeio aéreo começou, o novo Ministro da Defesa de Honduras, José Zelaya, recebeu em Tegucigalpa a Comandante Geral do Comando Sul dos Estados Unidos, Laura Richardson, que ofereceu ajuda militar ao novo governo. Enquanto em Havana, o presidente do Parlamento russo, Viacheslav Volodin, se reunia com o presidente cubano Miguel Díaz Canel. Algumas imagens anedóticas, mas que parecem deixar claras as tendências e alianças que os governos da região têm diante dos acontecimentos internacionais.

Vozes discordantes

A reação diplomática imediata foi majoritariamente de rejeição ao uso da força por parte do governo russo. No entanto, no caso do presidente boliviano Luís Arce, ele fez um apelo pálido pela paz sem grandes qualificações sobre o conflito. Embora o presidente midiático de El Salvador, Nayib Bukele, tenha questionado a credibilidade dos Estados Unidos antes da ofensiva russa, ele ainda não se pronunciou.

Como esperado, Cuba, Nicarágua e Venezuela “fecharam fileiras” apoiando abertamente as ações militares da Rússia, seguindo em seus comunicados oficiais a linha de argumento de que a Rússia busca libertar a Ucrânia do fascismo e defender as minorias pró-Russas de um suposto “genocídio” em curso conduzido pelo governo ucraniano. Desta maneira, esses governos de deriva ditatorial inconcebível, se aproximam de posições com um dos poucos aliados internacionais que ainda mantêm.

Essas versões estão alinhadas com a narrativa propagandista auspiciada pelo Kremlin. Inclusive, algumas contas oficiais de redes sociais desses governos propagam abertamente as versões da mídia russa, como RT ou Sputnik — vetadas pela União Europeia e pelo Facebook — bem como outros meios de comunicação alinhados ideologicamente com a Rússia, como Telesur e Al.

Essa notória discordância revela um aberto distanciamento com dois dos principais norteadores do direito internacional: o princípio da autodeterminação e a rejeição ao uso da força para a resolução de conflitos. Dessa maneira, fica também em evidência o distanciamento dessas tiranias da esquerda radical com os novos governos de esquerda democrática da região.

Essas declarações discordantes, no entanto, são minoritárias e contrastam com as mensagens diplomáticas da maioria dos governos da região em rejeição ao uso injustificado da força e na busca de uma resolução pacífica para um conflito que continua deixando vítimas em seu rastro.

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