O que Catar 2022 nos disse sobre a democracia global?

O mundial no Catar tem sido marcado por polêmicas. Desde a controversa adjudicação do emirado como sede, passando pelas condições de vida e trabalho dos milhares de trabalhadores migrantes, até as ameaças aos jogadores no caso de participarem de alguma manifestação. Estas marcas no maior evento de futebol interpelam a aceitação da prática autoritária. 

A equipe de Diálogo Político refletiu com atenção sobre isso com sua rede de autores latino-americanos. É com esse espírito que esta análise especial oferece visões diversas sobre um evento que talvez fique na memória como o Mundial de protestos silenciosos e silenciados.

Cartão vermelho para a FIFA

O Qatar, quase contraditoriamente, quis demonstrar que a liberdade  dos que gritam gol é possível no país das proibições. Na verdade, a FIFA comprou esta ideia: um lugar exótico do Oriente Médio como sede do evento mais importante do planeta, por que não? Havia muitas razões pelas quais essa opção era uma má ideia e agora são mais evidentes: sanções à diversidade, restrições à liberdade de expressão, tutela masculina das mulheres e um sistema laboral polêmico sustentado principalmente por imigrantes. Não esqueçamos a opacidade e as denúncias de corrupção.

Felizmente, atenção global não foi apenas focada na bola rolando pelo campo, mas também no alto custo desses minutos de jogo além da paixão futebolística. Mas, é claro, não é suficiente. Embora a FIFA diga o contrário.

O protesto diferente

Na manifestação esportiva mais globalizada, a seleção do Irã comoveu ao se negar a cantar o hino nacional de seu país antes de disputar a partida contra a Inglaterra, que perdeu por 6 a 2. Um gesto de reconhecimento silencioso dos protestos em Teerã pela morte da jovem curda Mahsa Amini, sob custódia policial por, supostamente, não respeitar a indumentária obrigatória das mulheres que o regime de ayatollah Ruhollah Khomeini impõe. A denúncia mais eficaz e heroica contra a barbárie converteu a goleada no campo em uma grande vitória moral na arena do Catar.

Globalização e legitimação

Os Mundiais de futebol sempre foram espaços de legitimação política. Muitas vezes, nações emergentes, periféricas e deslocadas buscam um assento de reconhecimento através do êxito organizacional e esportivo. Não é mais o fascismo ou a Guerra Fria, mas o mundo do capitalismo pós-moderno.

Enchemos de conteúdo e significado estas disputas que, na realidade, são atravessadas pelo marketing, a globalização do espetáculo e a deslocalização do jogo. A esmagadora maioria dos jogadores, mesmo os do Sul global, são desenvolvidos por clubes transnacionais das ligas espanhola, inglesa, alemã, italiana ou francesa. O status de dono do clube diz mais sobre uma posição dominante na escala global, que no final tenta padronizar-se em valores que não são os democráticos, mas os do marketing.

Quando o presidente da FIFA, Gianni Infantino, disse que se sentia como “catari, mulher, trabalhador imigrante, africano, gay”, ele foi eloquente: ser tudo sem ser nada é, talvez, a expressão mais completa do nosso tempo.

O futebol como motivo

Em 1952, Alan Turing foi condenado por homossexualidade e castrado quimicamente sob a lei inglesa. Em 1958, em Bruxelas, a atual capital da UE, aconteceu a Exposição Internacional e Universal e ali se apresentou o último de vários zoológicos humanos que eram comuns na Europa até bem no século XX para mostrar pessoas “exóticas”. E até 1956, a segregação racial era vigente de maneira legal nos Estados Unidos, onde “cidadãos de segunda classe” recebiam um tratamento injustamente desigual, apenas pela cor de sua pele.

Perseguição e castigo por causa da identidade sexual; tratamento degradante e humilhante a quem nascia e lugares desconhecidos; segregação pela cor da pele. Visto em perspectiva histórica, os marcos morais que os cidadãos do Ocidente moderno viviam ainda na segunda metade do século XX são abomináveis e profundamente contrários aos direitos humanos.

As normas morais mudam lentamente e só através do diálogo e da reflexão conjunta – e não da imposição – que as sociedades ocidentais transformaram seus valores; e a partir daí reconhecem e protegem os direitos fundamentais dos seres humanos. Chegar até aqui requereu tolerância e diálogo. Se o Ocidente quer acompanhar os cidadãos cataris em seu caminho para a construção de uma sociedade com mais direitos, então deve-se aproveitar todas as oportunidades – longe de boicotes ou ameaças – para cimentar as bases de um diálogo plural, aberto e livre. A Copa do Mundo é uma dessas oportunidades.

Cuidar da redonda

Depois de Itália 1934 e Argentina 1978, Catar 2022 é o terceiro Mundial organizado em um país ditatorial. Não contando Rússia (2018), onde são celebradas eleições periódicas, mas longe dos padrões internacionais de transparência, pluralismo e competição legítima.

Este é um evento histórico que expõe a distância entre o futebol e a democracia. O que rege o a bola são os números, os lucros, o negócio. É claro que, desde que não produzam rentabilidade exorbitante, a liberdade de expressão, os direitos das mulheres e a diversidade sexual não são prioridades para a FIFA. 

Deixa-se passar uma oportunidade incrível para fazer pedagogia a partir do esporte mais popular do planeta. Não tenho dúvidas de que, assim como os grandes autoritarismos usaram o futebol como máquina de propaganda de seus regimes, os sistemas abertos devem associar o futebol a valores nobres como liberdade e igualdade. Ou seja: cuidar do futebol, não o manchar.

Defesa da democracia e do pluralismo

Esta Copa do Mundo reuniu os grandes debates do nosso tempo. Desde o abuso dos direitos humanos dos trabalhadores contratados para as obras do Mundial, a proibição da braçadeira One Love, até o assassinato brutal de Mahsa Amini e os protestos das mulheres iranianas. Com o Mundial como pano de fundo, temos uma tela dividida onde através do esporte vemos a ausência de liberdades sofridas por alguns, enquanto outros aproveitam para expressar sua solidariedade com causas políticas.

“A bola não se mancha”.

Catar não nos diz nada sobre a defesa da democracia e do pluralismo. Anexar intenção política à competição global de futebol ou usar as seleções nacionais e seus jogadores para passar mensagens políticas é um erro. Atenta contra o espírito do jogo.

Estou de acordo com a FIFA quando proíbe qualquer slogan político ou de protesto usando a tela que proporciona o jogo durante pouco mais de 90 minutos. O grande Diego Armando Maradona já havia dito isso diante de uma Bombonera lotada, em uma de suas muitas tentativas de se tornar novamente o dez do Boca. Disse: “A bola não se mancha”. E com cinco palavras ele resumiu o que o futebol deveria ser, um jogo, um simples jogo.

Democracia, pluralismo, respeito aos direitos humanos, às minorias e todos os etcéteras não é coisa do futebol. Não tem nada a ver com isso. É algo da política.

A transparência imprescindível

A transparência é inimiga das autocracias. Qualquer tipo de informação que não passe pelo controle e eventual censura do governo torna-se uma ameaça. Especialmente se o país busca manter uma imagem amigável e positiva no cenário internacional apesar de dentro de suas fronteiras os direitos mais fundamentais não serem respeitados. O problema para estes Estados surge quando a visibilidade é enorme, pois perdem o controle sobre o fluxo de informações. E este é o caso quando se celebra uma Copa do Mundo como a do Catar. 

Algumas vozes consideraram um erro entregar a organização a um país onde não existe o Estado de direito, chegando inclusive a promover um boicote ao torneio. Entretanto, como a representante da Transparência Internacional, Sylvia Schenk, explicou na televisão alemã, a visibilidade inerente a uma Copa do Mundo pode obrigar o Catar a melhorar as condições de vida de seus habitantes, assim como aumentar o respeito aos direitos humanos. Uma postura que poucos compartilham, mas que guarda uma quota importante de realismo e otimismo. Talvez este evento esportivo seja o ponto de partida.

Insustentável

O Catar sugere uma bolha removida da realidade de tantos. O povo da Ucrânia enfrenta um inverno terrível. Milhões de migrantes sobem em barcaças para se afogar no Mare Nostrum e a mudança climática faz-se notar cada vez mais com eventos extremos. Em contraste, o Catar utiliza estádios climatizados, sistemas de transporte que muitos países desejariam e exibe um luxo sem igual com total falta de pudor e celebrado por jornalistas em prol de uma nota exclusiva.

Talvez alguém calcule a pegada de carbono desta Copa do Mundo. Talvez alguém reflita sobre seus custos energéticos e, portanto, climáticos. No domingo, a festa terminou e, com ela, o sonho de Copa de muitos. Persistirão as consequências e talvez alguém nos pergunte em algum momento o que estávamos pensando quando gritávamos gol e admirávamos palácios construídos sobre poços de petróleo. Definitivamente, insustentável.

*Texto originalmente publicado em Diálogo Político

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