Populismo: moralismo autoritário

Existe a tentação de não usar a palavra populismo, mas censurar palavras não suprime as realidades que lhes dão sustento. E, assim, é preciso seguir tratando do assunto.

Em nossos tempos, o mundo inteiro se parece a um bosque (em chamas) de onde brotam de todos os lados, e sem aviso, vários fungos em forma de populismo, cujo aspecto díspar deriva das diferentes tradições e culturas de cada país. É o passado que transmite ao presente aquilo que persevera dele, ainda que de forma latente. “A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos”, dizia Marx. Nisso não há novidade. Temos noção dessa viagem desde os tempos de Aristóteles, que define os demagogos como “aduladores do povo”, passando por Luís Napoleão Bonaparte, que se apresentou como benfeitor do povo enquanto conduzia seu famoso golpe de Estado e enriquecia sua corja de asseclas, até chegar a Perón, inicialmente simpatizante do fascismo mas cujos seguidores, décadas depois, exigem uma “pátria socialista”, e prosseguir com Getúlio Vargas, ditador do “Estado Novo” que ainda assim se tornou líder populista na década de 1950. Um carnaval interminável no qual Hugo Chávez definiu Cristo como o primeiro socialista da história, e Donald Trump, no extremo oposto do espectro, reduziu os impostos dos ricos, e com eles os serviços sociais do povo que diz representar. Pode ser que continuemos a nos afundar no pântano de uma cultura incapaz de aceitar a modernidade e seu produto político mais maduro, a democracia como conflito regulado.

Nesse torvelinho de disparates, às vezes de direita e às vezes de esquerda, algumas coisas são comuns a toda forma de populismo. Limitemo-nos a enumerar algumas.

– O eixo determinante é aquele que liga o líder ao “povo”. Nele tudo começa e tudo termina. Os corpos intermediários, como os partidos, os meios de comunicação, os sindicatos independentes, são considerados um estorvo, ainda que possam ser tolerados. E daí vem a ideia do fascismo democrático: um fascismo que, embora manobrando ou recorrendo a fraudes, mantém as eleições, convertidas em eterno plebiscito.

– A democracia liberal, com seu pluralismo, é outro estorvo diante da visão maniqueísta sob a qual as sociedades se dividem em um povo “verdadeiro” e um antipovo composto pelos opositores que não apreciam a formosura ética de uma sociedade que renuncia à crítica e ao debate para não dar oportunidade a conspiradores internos e externos. O maniqueísmo que prepara o terreno para uma paranoia sistêmica.

– O autoritarismo (que supõe a ocupação do Estado sob um Executivo que restringe a todos os demais poderes) deixa de sê-lo caso exercido em nome do povo e de um patriotismo que encarna a unanimidade e homogeneidade étnica pretendidas para a nação.

– Da mesma forma que o pluralismo é uma doença, alternância no poder não é aceitável (ou o é apenas a contragosto), e daí deriva um estilo de governo que supõe uma campanha eleitoral permanente. As entrevistas coletivas semanais de Rafael Correa e Chávez, e diárias no caso de López Obrador, a obsessão pelo Twitter e os frequentes comícios de massa de Trump, bem como seus ataques constantes à imprensa e aos opositores políticos.

De onde vem esse conjunto de traços comuns a uma multiplicidade de experiências? De uma época de incerteza na qual, entre a globalização e a revolução tecnológica, postos de trabalho, expectativas de futuro e posições sociais adquiridas são colocados em questão. Nesse contexto de mal-estar, é compreensível que grandes setores da população percam a confiança nos partidos tradicionais ou em na própria capacidade de organização, e confiem suas expectativas a demagogos que canalizam as frustrações coletivas para a xenofobia, visões conspiratórias sobre o mundo e expectativas ilusórias. O ponto é se apoiar no povo naturalmente virtuoso e ir contra as elites corruptas. E não é que não exista nisso graus variáveis de verdade, mas a certeza com que essa tese é afirmada deixa entrever um moralismo que não propicia mudanças profundas, mas sim uma renovação das elites que comandam o Estado, e com isso a criação de novas redes de clientelismo, novas formas de nepotismo e de impunidade para os seguidores mais dedicados e confiáveis. A sociedade civil se dissolve, sob organizações sociais controladas pelo Estado.

Como se pode explicar que, em muitos casos, os líderes que representam a “encarnação” do “povo” sejam magnatas, como Trump, Silvio Berlusconi ou Andrej Babic, na República Tcheca? Pelo uso de uma linguagem popular (frequentemente temperada por vulgaridades) que busca aproximar líderes e massa por empatia, e pelo recurso a diversos bodes expiatórios para todas as desgraças, reais ou temidas: a classe política tradicional, a mídia, os tecnocratas, a burocracia…

América Latina foi e continua sendo um teatro privilegiado para o populismo.

Deveria ser bastante claro por que a América Latina foi e continua sendo um teatro privilegiado para o populismo. Porque aqui a desconfiança quanto às instituições e os partidos que as representam se justifica mais do que em outros lugares, por conta da imensa distância entre os direitos civis formalmente reconhecidos e as condições sociais, sujeitas a fragmentação extrema e há gerações sem mudanças substantivas. Porque aqui a distância entre o liberalismo dos direitos individuais e a democracia como marcha para uma crescente homologação social é maior.

Mas existe outro aspecto relevante. Sobretudo na América Latina, o populismo se alimenta do espírito religioso comunitário que surge do imaginário de harmonia que vem da era colonial e da idealização do mundo que existia antes de Colombo. A bem da equidade prometida pelos líderes populistas, os direitos individuais e a visão da democracia como conflito regulado passam diretamente ao segundo plano. Construir na Terra essa dimensão divina de harmonia patriarcal em que todos conhecem seu lugar e aceitam a autoridade do líder como guia profético no caminho para um futuro melhor. Uma espécie de endeusamento do caudilho que

supõe a moralização do arbítrio e e uma desconfiança que ressurge periodicamente no seio da democracia liberal. É uma sociedade que se autorrejeita em nome da saudade de uma comunidade que se perdeu no tempo, e assim se converte em uma nostalgia fora da história.

Se acrescentarmos que, na história latino-americana, o novo veio sempre de fora, na forma traumática da conquista e colonização, na dependência tecnológica, no comunismo, nas instituições da democracia liberal, nos estilos de vida modernos etc., é compreensível que o populismo se apoie em uma vontade declarada de distanciamento do resto do mundo a fim de descobrir uma identidade própria supostamente impoluta e independente das mudanças mundiais. Uma espécie de utopia regressiva baseada no desejo, mais ou menos explícito, de construir uma identidade própria à margem do resto do mundo.

Em lugar de aceitar o desafio de buscar uma qualidade democrática e um nível de bem-estar comparáveis com o dos países mais avançados do planeta, o que implicaria reconhecer as fragilidades institucionais e as injustiças sociais normatizadas, o populismo oferece um atalho para lugar nenhum, em uma direção que até agora nunca nos tirou do atraso. Mas, embora os resultados tenham sido e continuem sendo pobres (exceto pelo ingresso das massas na política, em tempos já distantes), e às vezes desastrosos (Venezuela), a consciência fica a salvo graças às boas intenções declaradas, que justificam tanto a vontade de isolamento de uma realidade mundial conflituosa como o sonho de um autoritarismo baseado na saudade de um passado idealizado. Os caudilhos providenciais são coisa nossa, e que Deus os abençoe. Pelo menos até o momento em que se torne evidente que eles criaram mais problemas do que prometeram resolver.

Foto de ¡Que comunismo! em Foter.com / CC BY-NC-SA