Um Brasil para o Tio Sam ver

Coautor Bruno Nzinga Ribeiro

Em 11 de junho de 2022, a sociedade brasileira no exterior presenciou um ato político inédito. Em visita aos Estados Unidos, o presidente brasileiro participou de uma motociata, organizada por seus apoiadores, pelas ruas de Orlando, no estado da Flórida. Ao longo dos quase quatro anos, motociatas pelas principais cidades brasileiras tornaram-se uma ação política adotada pelo atual governo federal. Ainda que, em muitos casos, essas motociatas sejam um tanto esvaziadas e acompanhadas de vaias, esta é uma forma encontrada pelo atual governo federal para desafiar governos locais da oposição e emular na mídia um apoio popular que lhe falta. Claro, com dinheiro público. 

Vídeos e fotos da motociata em Orlando revelam um público majoritariamente de homens brancos de meia-idade, vestindo camisas verde-amarelas e montados sobre grandes motocicletas. Produzida por organizações brasileiras na Flórida, a motociata fez parte de uma agenda de Estado que começou com a participação da Cúpula das Américas, em Las Vegas. Em seguida, o presidente inaugurou o vice-consulado brasileiro em Orlando. 

Em outro discurso, ele enfatizou seu compromisso em defesa da família brasileira, a propriedade privada, a liberdade do armamento e o combate à determinadas minorias sociais. Enfatizou, ainda, que ele e seu público são “pessoas normais” e, mais do que oxigênio, precisam de liberdade. Uma liberdade defendida não apenas pelos motociclistas, mas por claques como a das “Vovós Poderosas de Las Vegas”. Um grupo de 12 senhoras patriotas, bem nutridas e que adoram aproveitar a vida e aparecer cobertas com a bandeira dos Estados Unidos.  

Brasileiros deportados dos EUA 

Um dia antes, 10 de junho, o aeroporto internacional de Confins, em Minas Gerais, registrava a aterrissagem do 64° avião fretado pelo governo estadunidense trazendo deportados brasileiros dos Estados Unidos. Esse é um processo que havia sido suspenso em 2008, mas voltou a ganhar força durante as gestões de Donald Trump e Jair Bolsonaro.  

O primeiro voo aterrissou em outubro de 2019 e, desde então, alcançamos a marca de 6.441 brasileiros deportados. Todos os voos chegam em Confins. Pouca informação é dada sobre a escolha desse aeroporto. Pesquisas sugerem que, dado ao forte histórico das redes migratórias existentes entre Minas Gerais e o próprio Estados Unidos, o governo dos EUA entende que a grande maioria desses brasileiros são oriundos ou partiram de lá. Ferindo leis de reciprocidade e a soberania nacional, impuseram essa medida e nosso governo aceitou, sem retorno algum. 

Matérias de jornal demonstram que não há política alguma de recepção desses brasileiros. Aqueles que chegam em Minas Gerais devem contar com recursos próprios ou redes familiares para retornar aos seus respectivos estados. Esse é o caso apresentado sobre a história de brasileiros originários de estados como Rondônia.  

Ademais, relatos de violência são constantemente apresentados por esses deportados, que não são poucos. Atualmente, existem 89.971 casos pendentes de brasileiros para deportação. O ano fiscal estadunidense se encerra em setembro. A expectativa é de que o aumento do número de voos com deportados cresça até lá. A grande maioria se encontra nos três principais estados que recebem migração brasileira: Massachusetts, New Jersey e Flórida. Esse último, o mesmo da motociata, tem mais de 9 mil brasileiros aguardando julgamento.  

Contudo, os números ganham maior proporção quando acompanhamos os dados fornecidos pelo Yearbook of Immigration Statistics. Entre 2019 e 2021, é possível constatar que 81.935 brasileiros foram detidos logo nas fronteiras dos Estados Unidos. A grande maioria, no estado do Texas, o que sugere que estão acessando o território dos EUA através de rotas migratórias que atravessam a América Central. Todos esses brasileiros (169.698) foram detidos ou/e estão presos por terem atravessado a fronteira dos Estados Unidos em busca de melhores condições de vida.  

Quem são esses brasileiros? 

Certamente, teremos comentaristas de plantão prontos para dar o veredito sobre essa parcela de brasileiros invisíveis aqui e lá. Dirão eles se tratar de pessoas que envergonham o país; migrantes “ilegais” que estão ferindo a soberania dos Estados Unidos. Portanto, detenção e expulsão são medidas mais do que legítimas promovidas pelos governos de Trump e Biden. Isso é assegurar a sua própria liberdade. É preciso destacar que nosso presidente, também, partilha dessa premissa.  

Temos um governo supostamente patriota, que afrouxa unilateralmente a circulação de determinadas nacionalidades no Brasil, mas aceita calado maus-tratos produzidos com brasileiros indocumentados lá fora. A surpresa não acaba por aí. Tanto a presidência quanto um tal deputado federal defenderam veementemente a construção do muro para assegurar a democracia “americana”. 

Mas, algumas das perguntas que podemos fazer é: Quem são esses brasileiros deportados? O que eles dizem sobre esse Brasil? Por qual motivo, governo federal e mineiro calam-se sobre a forma com que estão sendo deportados?  

Ao contrário do cenário aventureiro desenhado por diversos meios de comunicação, nossos aeroportos internacionais tornaram-se portas de fuga para muitos brasileiros que não resistem ao aumento inflacionado de nosso custo de vida, ao desemprego ou ao emprego informal, aos sucessivos cortes em setores que são entendidos como “gastos”, tais como saúde e educação.  

Os aeroportos de Guarulhos, Santos Dumont e Confins são algumas dessas portas. Nossa miséria social e desigualdade econômica, que voltam a acentuar, camufladas de luta do bem contra o mal, são esticadas até as fronteiras dos Estados Unidos.  

Os emigrantes brasileiros percorrem a pé a América Central, enfrentam violência e morte, esgueiram-se pelo deserto, enfrentam correntezas, pulam cercas e, por fim, são detidos por patrulheiros estadunidenses e sua parafernália bélica. Ganham holofotes midiáticos nos Estados Unidos. Lá, são ilegais como drogas ou criminosos, aqui um embaraço nacional. Presos, envergonhados e deportados, voltam todos para Confins e, mais uma vez, são jogados à própria sorte. O aeroporto de Confins tornou-se uma porta giratória, onde nossa miséria vai e volta.  

Enquanto isso, a motociata em Orlando risca o asfalto e desenha uma República das Bananas para gringo ver. Alucinados, com a barriga cheia e, confortavelmente sentados em suas possantes motocicletas, patriotas desfilam por Orlando deixando claro, mais uma vez, que a tal “Pátria Amada, Brasil” não é para todos.

Bruno Nzinga Ribeiro é Mestre em Antropologia Social, doutorando no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social e pesquisador discente no Pagu – Núcleo de Estudos de Gênero da Universidade Estadual de Campinas.

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