Às vezes, o mundo funciona assim: uma pessoa grita por décadas à beira do rio que a água está contaminada, mas ninguém lhe dá ouvidos. Até que, uma tarde, chegam senhores com microfone, gravador, selo oficial e anunciam, com cara de descoberta, que a água está contaminada. Então começam as notas, os comunicados, as conferências. E quem gritava olha da margem como se dissesse: não era preciso um microfone, era preciso vontade.
Esta semana ocorreu uma cena parecida. Mais de 150 governos aprovaram um relatório que coloca em palavras claras o que os povos originários da nossa região e do mundo vêm dizendo com clareza há muito tempo: a obsessão pelo crescimento medido pelo PIB está destruindo a natureza. Não é uma metáfora; é uma conclusão oficial da IPBES — a plataforma científica intergovernamental sobre biodiversidade — aprovada em plenária, com atas, sede e foto, e repetida pela mídia global que adora a frase “virada histórica” quando a virada é, na verdade, um retorno tardio ao óbvio.
O que é apresentado como revelação científica revela, sobretudo, uma profunda desigualdade epistêmica: quem tem legitimidade para nomear o que é conhecimento. Porque essa verdade — a de que o crescimento a qualquer custo destrói a base que o sustenta — não nasceu em Manchester nem nos escritórios onde agora circula; nasceu em territórios que há gerações vêm alertando que um modelo que destrói rios, florestas e solos não pode ser chamado de progresso, pois ameaça a vida. Mas o mundo só ouve quando o alerta vem acompanhado de gráficos, logotipos e tradução simultânea.
O relatório lembra que todas as economias dependem de bens ambientais gratuitos que não constam em nenhum orçamento: a água filtrada pela floresta, a polinização gratuita, o clima amortecendo excessos. E aponta que medir o progresso com um indicador que ignora esses fundamentos é uma forma de cegueira organizada, uma ficção contábil que transforma destruição em lucro.
Enquanto isso, o dinheiro real — aquele que move a máquina — segue apontando para outro lado. Em 2023, US$7,3 trilhões financiaram atividades que prejudicam a natureza, e apenas US$220 bilhões foram destinados a protegê-la: uma proporção de 30 para 1 (1).
Não é um desequilíbrio técnico: é uma decisão política
E aí surge a palavra incômoda: hipocrisia política. Porque muitos dos governos que assinam esses relatórios são os mesmos que relaxam as regulamentações ambientais, mantêm subsídios regressivos ou criminalizam aqueles que defendem a terra.
Mas a hipocrisia não ocorre no vácuo: ocorre em uma economia onde o poder se concentra a uma velocidade que desmente qualquer narrativa de austeridade. Em 2025, a riqueza dos bilionários do mundo cresceu três vezes mais rápido do que a média anual dos cinco anos anteriores. Na América Latina, o número de bilionários aumentou para 109, com uma fortuna combinada de US$622,9 bilhões, quase equivalente ao PIB do Chile e do Peru juntos (2).
Enquanto alguns poucos acumulam poder nesse ritmo, outras pessoas — quem sustenta a vida nos territórios — pagam a conta. Em 2024, 146 defensores e defensoras ambientais foram assassinados ou desapareceram, sendo 82% deles na América Latina. A Colômbia voltou a ser o país mais letal. A Guatemala multiplicou por cinco os assassinatos em relação ao ano anterior.
A violência não é um acidente: é um mecanismo funcional a um modelo econômico concentrado. Na região, 1% dos mais ricos possuem mais riqueza do que os 90% restantes, enquanto 50% dos mais pobres compartilham só 3%. Nesse contexto, defender um rio, uma floresta, uma montanha é colocar-se na linha de fogo daqueles que consideram a natureza um ativo e não um lar.
E, mesmo assim, as mesmas comunidades que enfrentam ameaças por defender seu território emergem agora em relatórios como os do IPBES, não como nota de rodapé, mas como sujeitos legítimos de conhecimento indígena e local, crucial para orientar a ação global.
Nessa contradição reside uma oportunidade
Porque quando um sistema que sempre desprezou esses conhecimentos começa a citá-los — mesmo que tardiamente — significa que a narrativa dominante está rachada. E quando uma narrativa se racha, é hora de escrever outra.
Esse é, na verdade, o eixo deste momento: a disputa por uma nova narrativa. Não mais um manifesto ambientalista, mas uma mudança na história que contamos sobre o que significa desenvolver-se, prosperar, avançar. Uma oportunidade para que a narrativa deixe de justificar a destruição e comece a possibilitar a vida.
Cinco mudanças narrativas ajudam a imaginar esse caminho:
1. Do crescimento ao bem-estar com limites
Se o PIB está enfraquecendo como bússola, então é hora de lutar pela sua substituição por medidas que realmente capturem o essencial: a saúde da água, a fertilidade do solo, a resiliência das cidades, o tempo dedicado aos cuidados. O IPBES já fala de riscos sistêmicos para a economia, o que abre uma janela para mover a conversa das margens para o centro. O que antes era “alternativo” pode se tornar senso comum.
2. Da boa vontade para regras que priorizam a vida
Basta esperar que as empresas ajam por convicção moral. O relatório é claro: sem regulamentação, sem divulgação obrigatória de riscos e impactos, sem eliminar subsídios prejudiciais, não haverá transição real. A narrativa deve insistir que não é um problema de ética individual, mas de desenho institucional.
3. De “antidesenvolvimento” a pilares do cuidado
Durante décadas, quem defendia rios e florestas foi acusado de frear o progresso. Hoje sabemos que eles sustentam a própria plataforma da qual qualquer economia depende. A narrativa deve mostrar que cuidar não é romantismo: é estratégia de sobrevivência coletiva.
4. Da biodiversidade decorativa ao risco material
A desigualdade de 30 para 1 entre o que é investido em destruir e em proteger é uma relato em si mesma. Falar da crise ecológica como risco financeiro não dilui a mensagem: torna-a ineludível para quem decide os orçamentos. Cada dólar extraído do futuro hoje é pago multiplicado amanhã.
5. Da consulta simbólica à cogovernação
Não basta “incluir” vozes indígenas: deve-se compartilhar o poder. O IPBES reconhece explicitamente a relevância de seus saberes. O que se segue é passar do gesto ao acordo: co-projeto de projetos, distribuição justa de benefícios, decisões vinculativas. Não por justiça — embora também —, mas porque funciona.
Em resumo: o relatório do IPBES não nos trouxe uma nova verdade; trouxe um megafone para verdades que já sabíamos. O mérito não está na revelação, mas na brecha que ela abre. Brecha na autoridade, brecha na narrativa, brecha na certeza de que a economia só pode ser entendida como soma de números.
Nessa brecha cabe uma nova história: uma em que o progresso deixe de ser medido pelo que é extraído e passe a ser medido pelo que é sustentado. Uma em que aqueles que estavam à beira do rio — gritando há décadas que a água está contaminada — não sejam mais uma nota de rodapé, mas uma voz central.
A história oficial só agora toma conhecimento disso. A oportunidade é que, desta vez, a narrativa mude a tempo.
Tradução automática revisada por Isabel Lima










