A conectividade tornou-se uma promessa transversal na política latino-americana. No entanto, a região não parte do zero: acumula políticas, investimentos e aprendizados verificáveis que permitem distinguir entre anúncios, capacidades de implementação e resultados mensuráveis. A cada ciclo eleitoral, voltam a ser apresentados temas como internet via satélite, escolas conectadas, fibra óptica e infraestrutura 5G. Essa coincidência revela que a conectividade deixou de ser uma questão setorial para se integrar ao repertório básico do desenvolvimento. Por isso, o debate não deve ser organizado como uma oposição entre um passado estagnado e novas promessas. A questão pertinente é outra: quais políticas geraram avanços, onde persistem as lacunas e quais capacidades permitem transformar a conexão em valor social e produtivo?
O que mostram os dados comparativos
A pesquisa sobre 33 países da América Latina e do Caribe demonstra que as disparidades na banda larga estão intimamente associadas ao desenvolvimento socioeconômico. A relação entre o uso da internet e o índice de desenvolvimento humano é particularmente elevada, e o acesso das famílias e a cobertura móvel ajudam a explicar diferenças importantes entre os países. Esses resultados não permitem atribuir o desempenho a uma única tecnologia nem a uma única decisão governamental; no entanto, mostram que infraestrutura, acessibilidade, capacidades e continuidade institucional atuam de forma conjunta.
A comparação regional aconselha evitar rankings construídos com só um indicador. Um país pode mostrar velocidades elevadas nas principais cidades mantendo atrasos nas áreas rurais; outro pode ampliar a cobertura de telefonia móvel sem resolver a questão da acessibilidade; um terceiro pode conectar escolas sem integrar a tecnologia ao processo pedagógico. A exclusão digital tem, ao menos, três dimensões: disponibilidade de infraestrutura, acesso e adoção efetiva, e capacidade de obter benefícios educacionais, econômicos e institucionais.
Quatro trajetórias que realmente importam
O Uruguai é o caso pioneiro. O Plano Ceibal (2007) combinou dispositivos, conectividade, capacitação de professores e acompanhamento em escala nacional. Sua lição mais valiosa não foi distribuir computadores, mas criar uma instituição capaz de sustentar e adaptar a política por quase duas décadas — embora a tecnologia não tenha produzido melhorias uniformes em todos os processos de aprendizagem.
O Chile acumula regulamentação, concorrência e expansão da fibra óptica. Sua experiência demonstra que a ampla cobertura não elimina as disparidades de qualidade, preço e uso produtivo. O cabo Humboldt, desenvolvido em parceria com o Google, coloca a infraestrutura digital no campo da resiliência e da geopolítica.
A Argentina, por meio do ARSAT e do Conectar Igualdad, ilustra a utilidade da infraestrutura pública e, simultaneamente, o custo das interrupções: a dificuldade de transformar uma rede troncal em conexões acessíveis para todo o território nacional persiste como um desafio institucional.
A Costa Rica, com o Fundo Nacional de Telecomunicações e um quadro institucional setorial estável, lembra que o serviço universal exige identificar beneficiários, definir subsídios, supervisionar operadoras e avaliar a qualidade: a capacidade regulatória é, portanto, parte da infraestrutura.
Brasil: a infraestrutura que não se vê
O Brasil deve ser analisado simultaneamente como um grande mercado interno e como um nó internacional. Uma parte essencial de sua posição digital encontra-se sob o oceano. Fortaleza, juntamente com outros pontos de aterramento, concentra cabos que conectam a América do Sul à América do Norte, à Europa e a outros mercados. Os cabos submarinos transportam a maior parte do tráfego internacional de dados.
A conexão EllaLink entre Fortaleza e Sines (em operação desde 2021) criou uma rota direta entre a América do Sul e a Europa, sem passar necessariamente pelos Estados Unidos. Essa diversificação reduz a latência, melhora a redundância e amplia as opções comerciais, mas levanta questões sobre a dependência de grandes plataformas, a segurança de infraestruturas críticas e a soberania digital. A conectividade funciona como um sistema: redes troncal internacionais, centros de dados, pontos de intercâmbio, fibra óptica nacional, redes móveis e soluções de última milha. Uma política que atenda apenas a um desses níveis será necessariamente incompleta.
Starlink: função complementar, não substitutiva
O Starlink vem adquirindo influência crescente sobre a infraestrutura digital latino-americana. É preciso, no entanto, ter cautela estatística: em julho de 2024, a Anatel registrava apenas 224.700 acessos no Brasil (cerca de 0,5% da banda larga fixa). Seu valor real é complementar — áreas remotas, escolas, saúde, logística, emergências —, embora depender de um único provedor privado acarrete riscos relacionados a preço, jurisdição e soberania.
A conveniência técnica dos satélites de órbita baixa não é ideológica. Um consenso eleitoral transversal confirma isso: Brasil, Costa Rica, Peru e Colômbia incorporam o satélite em arquiteturas híbridas. O teste decisivo será transformar essas promessas em planos neutros, sustentáveis e articulados com capacidades reais.
A agenda pendente
A agenda já não consiste apenas em conectar territórios, mas em garantir que a conectividade gere capacidades, produtividade e desenvolvimento. A América Latina deve completar a cobertura em áreas rurais, amazônicas, insulares e de baixa densidade por meio de soluções híbridas que combinem fibra óptica, redes móveis, ligações comunitárias e satélites. Mas uma conexão cara, lenta ou instável não representa inclusão digital real.
O desafio é simultaneamente tecnológico, econômico e institucional: reduzir custos, melhorar a qualidade do serviço, formar capacidades digitais, proteger dados, supervisionar provedores e vincular a infraestrutura à educação, à saúde, aos serviços públicos e ao empreendedorismo. Essa lacuna é especialmente crítica para micro, pequenas e médias empresas: dispor de internet não significa poder adotar o comércio eletrônico, a análise de dados ou a inteligência artificial quando persistem deficiências em termos de talento, financiamento, segurança cibernética e conformidade regulatória.
Da promessa à capacidade de execução
A conectividade tornou-se um mínimo político regional. Justamente por haver precedentes, é possível comparar cada nova proposta com políticas que deram certo, instituições que perduraram e erros que não devem se repetir. O Uruguai demonstrou o valor da continuidade institucional; o Chile, a Argentina e a Costa Rica evidenciam a importância de combinar regulamentação, investimento e objetivos de serviço universal; o Brasil mostra que a conectividade depende de infraestruturas internacionais invisíveis.
A verdadeira nova promessa não é simplesmente conectar quem ainda não está conectado, mas construir instituições capazes de medir resultados e transformar a conectividade em aprendizado, produtividade, confiança, inovação e desenvolvimento territorial, como faz a fundação tech4peace na Colômbia. Essa promessa é menos espetacular do que uma antena de satélite, mas muito mais difícil de cumprir.
A transformação digital só gera valor quando instituições, empresas e comunidades desenvolvem capacidades para governar a tecnologia, gerenciar riscos, formar talentos e impulsionar empreendimentos. O Starlink e outros sistemas de satélite podem preencher as lacunas, mas não substituem a fibra óptica, as redes móveis, a concorrência nem o Estado.
Agora que a região parece ter chegado a um consenso sobre a necessidade de conectar todos os seus territórios, começa a discussão realmente importante: como transformar esse acesso digital universal em prosperidade compartilhada.











