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A força da natureza e a fragilidade do Estado

Os desastres naturais também colocam o Estado à prova: a prevenção, a capacidade institucional e a gestão de recursos podem determinar a magnitude de suas consequências.

Os desastres naturais costumam ser avaliados por sua magnitude, pelo número de vítimas ou pelo custo econômico que deixam em seu rastro. No entanto, também podem ser analisados como um teste à capacidade real do Estado. Uma emergência revela quais riscos foram antecipados, quais instituições já existiam antes da crise e até que ponto um governo estava preparado para responder e administrar com eficácia e transparência os recursos extraordinários destinados à reconstrução.

Isso leva a uma questão essencial: até que ponto um desastre natural é realmente “natural”? Um governo não pode impedir um terremoto, mas pode decidir onde e como construir, quanto investir em prevenção ou quais controles serão aplicados quando milhões de dólares em ajuda começarem a ser mobilizados. O Quadro de Sendai, como é conhecido o documento internacional adotado pelos países membros da ONU, parte dessa premissa ao atribuir ao Estado um papel central na compreensão, governança e redução de riscos.

Equador, México, Haiti e Chile permitem observar essa relação a partir de realidades institucionais distintas. Suas experiências mostram que os desastres também colocam à prova se as prioridades e decisões de um governo estão alinhadas com as vulnerabilidades do país que administra.

Equador: conhecer o risco não significa estar preparado

O terremoto de magnitude 7,8 que atingiu o Equador em abril de 2016 deixou centenas de mortos, milhares de feridos, dezenas de milhares de deslocados e graves danos à infraestrutura educacional e de saúde. As avaliações posteriores insistiram no fortalecimento das normas de construção, no reforço de edifícios vulneráveis e na avaliação da infraestrutura crítica.

A reconstrução deu início a um segundo teste institucional. Anos depois, os órgãos de fiscalização e o sistema judiciário equatoriano documentaram irregularidades e responsabilidades criminais relacionadas ao manejo dos recursos destinados à reconstrução de Manabí. Esse caso expõe duas vulnerabilidades: a das edificações diante do terremoto e a das instituições diante dos recursos destinados à sua reconstrução.

A prevenção não se limita à engenharia. Um Estado que conhece sua exposição ao risco deve proteger vidas e infraestrutura, mas também evitar que a urgência enfraqueça os controles sobre os gastos públicos.

México: aprender com um desastre realmente funciona

Os terremotos de setembro de 2017 afetaram milhares de residências, escolas e instalações públicas. No entanto, estudos posteriores mostraram que várias reformas adotadas após o terremoto de 1985, como normas de construção, instituições de proteção civil, simulados e informação pública, haviam aumentado a resiliência do país. Muitos dos edifícios que desabaram em 2017 foram construídos antes das normas de construção posteriores a 1985.

O México demonstra que a memória institucional é importante. Transformar uma tragédia em normas, capacidades e práticas permanentes pode reduzir as consequências da próxima. A preparação física, no entanto, não garantiu um rastreamento adequado dos recursos. Auditorias posteriores identificaram deficiências na distribuição de ajuda e no registro de doações internacionais.

Haiti: quando o desastre encontra uma fragilidade pré-existente

O terremoto de magnitude 7,2, ocorrido em agosto de 2021, voltou a atingir um país que já havia sofrido uma catástrofe devastadora em 2010. Milhares de pessoas morreram ou ficaram feridas, e mais de cem mil residências foram destruídas ou danificadas. A avaliação posterior constatou que o plano de contingência sísmica datava de 2013, que vários exercícios de simulação haviam sido adiados e que não havia suprimentos nem equipes de resgate suficientes previamente posicionados.

O Haiti levanta uma questão incômoda: quando uma catástrofe deixa de poder ser considerada inteiramente inesperada? Ter um plano não significa estar preparado se esse plano não for atualizado, financiado, testado e executado. A vulnerabilidade depende também da capacidade institucional existente antes do desastre.

Chile: incorporar o risco à política pública

O Chile oferece uma experiência diferente. Sua exposição sísmica levou o país a integrar o risco em suas normas de construção, sistemas de alerta, educação cidadã e protocolos de evacuação. O terremoto de Quellón, em 2016, de magnitude 7,6, teve um impacto relativamente limitado em comparação com outros eventos de intensidade semelhante.

A magnitude dos danos nunca pode ser atribuída exclusivamente à ação do Estado: a localização, a profundidade e as características do evento também são importantes. Mas a experiência chilena mostra que uma exposição elevada pode se tornar uma variável permanente do planejamento público. O risco deixa de ser uma exceção e passa a fazer parte da forma cotidiana de governar.

Quando prevenir também é governar

A capacidade de um governo diante de um desastre é construída antes da emergência. Mas a prevenção deve incluir também a integridade.

As emergências geralmente envolvem procedimentos acelerados, contratações extraordinárias e decisões tomadas sob pressão. Por isso, aumentam os riscos de fraude, favoritismo, conflitos de interesse e desvio de recursos. Preparar-se significa definir com antecedência como as doações serão registradas, quais controles existirão sobre as contratações e quem supervisionará os recursos.

Os planos governamentais devem partir de um mapa de vulnerabilidades e ser acompanhados por um mapa de riscos à integridade. Em regiões sísmicas, isso implica normas de construção fiscalizadas, avaliação da infraestrutura crítica, protocolos de evacuação e capacidade de resgate, mas também controles capazes de resistir à urgência. No entanto, o Relatório de Avaliação Regional 2024 da UNDRR alerta que, nos países latino-americanos analisados, menos de 35% dos gastos estudados eram destinados a medidas prospectivas e corretivas de redução de risco.

Se os riscos já são conhecidos, esperar que eles se concretizem para agir não é simplesmente falta de previsão. É também uma decisão do governo. A verdadeira questão não é o que o Estado fará após o próximo desastre, mas por que decidiu não fazer antes aquilo que já sabia ser necessário.

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Graduada em relações internacionais e ciências políticas pela Universidade San Francisco de Quito e mestre em direitos humanos e governança pela Universidade Autônoma de Madrid.

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