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Quando a cana não basta mais: manufatura, turismo e marketing na nova economia do rum latino-americano

O rum latino-americano não se resume mais apenas à cana-de-açúcar: a fabricação, o turismo e as marcas premium estão redefinindo quem detém o valor de um setor com crescente projeção global.

Um mojito, uma piña colada, um daiquiri ou um cuba libre. Há décadas, basta pronunciar qualquer um desses nomes em um bar de Madri, Miami, Buenos Aires, Moscou ou Tóquio para evocar a mesma promessa: gelo, música, festa e clima tropical. Poucos produtos latino-americanos percorreram o mundo com tanta facilidade quanto os coquetéis criados à base de rum.

Mas por trás dessa promessa há histórias mais complexas. O daiquiri e o cuba libre surgiram em uma Cuba marcada pela guerra e pela presença norte-americana. A piña colada apareceu décadas depois, quando o turismo moderno começava a transformar o Caribe em uma experiência exportável. Muito antes de se falar em marcas premium, denominações de origem ou roteiros de destilarias, os coquetéis já haviam conquistado algo extraordinário: tornar o rum uma forma de imaginar a região.

Antes de tudo isso, havia a cana-de-açúcar. Seu cultivo chegou à América com a colonização europeia e se tornou uma das bases da economia caribenha, sustentada durante séculos pela exploração da mão de obra escravizada. Da produção de açúcar restava o melaço, que podia ser fermentado e depois destilado. O que começou como uma forma de aproveitar um resíduo acabou dando origem a uma indústria global.

Embora o rum tenha origem na cana-de-açúcar, sua economia atual está cada vez mais ligada à fabricação, à exportação e ao marketing. Nenhum consumidor paga cem dólares por uma garrafa por causa do custo do melaço. Ele paga pelos anos de envelhecimento em barril, pela reputação do produtor, pela origem, pela escassez e pela história construída em torno da bebida.

A cadeia também não funciona da mesma forma em todos os países. Alguns mantêm uma produção integrada, desde o cultivo até o engarrafamento. Outros importam melaço, compram destilados ou concentram sua vantagem na mistura, no envelhecimento e na comercialização.

Os mercados de destino mostram o peso alcançado pelos produtores regionais. Em 2025, os Estados Unidos importaram cerca de 161 milhões de dólares em rum e tafia. A República Dominicana foi seu principal fornecedor, com 23,1 milhões; Barbados contribuiu com 19 milhões, a Jamaica com 18,1 milhões e a Venezuela com 16,6 milhões. Nesse mesmo ano, a Espanha comprou 42,5 milhões de euros em rum dominicano, 29 milhões em rum cubano e 8,38 milhões em produto venezuelano. Os números confirmam que o Caribe continua sendo um importante fornecedor, mas não revelam quanto do valor final permanece nos países produtores.

O local onde o rum é comercializado pode ser tão importante quanto aquele onde a cana foi cultivada. Grandes empresas, centros de engarrafamento, distribuidores e plataformas de reexportação participam de uma cadeia na qual a origem do produto nem sempre coincide com o local onde os lucros são gerados. O desafio não consiste apenas em vender mais litros, mas em aumentar o valor que permanece em cada país por meio do envelhecimento, do engarrafamento, da marca e da distribuição.

Por muito tempo, o rum chegou ao público escondido por trás de outros ingredientes. Era a base do mojito, do daiquiri ou da piña colada, mas raramente ocupava o centro da conversa. Esse espaço pertencia ao uísque e ao conhaque, associados ao envelhecimento, à proveniência e ao prestígio. Agora, o rum tenta entrar nessa mesma categoria.

As projeções da IWSR, empresa internacional especializada na análise do mercado de bebidas alcoólicas, apontam para um mercado global de rum praticamente estagnado entre 2024 e 2029. Nesse cenário, o segmento superpremium apresenta maior dinamismo em mercados-chave como os Estados Unidos e o Reino Unido. O rum não aspira mais apenas a ser misturado, mas também a ser degustado puro, oferecido como presente e colecionado.

A mudança pode ser observada nos bares. Em cidades distantes dos canaviais, surgiram estabelecimentos dedicados a explorar a diversidade do rum. O Smuggler’s Cove, em São Francisco, foi inaugurado em 2009 e, em 2025, já contava com cerca de 1.300 referências. O rum começa, assim, a formar consumidores interessados não apenas em bebê-lo, mas também em conhecer regiões, métodos e produtores.

Os países adotaram estratégias diferentes para capturar esse valor. Porto Rico e a República Dominicana combinam escala industrial, marcas reconhecidas e acesso a grandes mercados. A Guatemala protegeu uma denominação de origem que vincula o produto ao mel virgem de cana, ao envelhecimento em altitude e ao sistema de solera. A Jamaica e Barbados se apoiam em perfis históricos e métodos distintos para competir em categorias superiores.

Cuba mostra o outro lado da relação com a agricultura. Estimativas baseadas nos resultados provinciais situaram a produção de açúcar da safra 2024-2025 em cerca de 165.000 toneladas, o nível mais baixo em mais de um século. Como as normas de autenticidade exigem que seus produtores utilizem insumos nacionais, a escassez de melaço ameaça sua indústria de rum.

A “premiumização” não ocorre apenas dentro da garrafa. Ela também se constrói em torno dela. O rum é comercializado como parte de um estilo de vida que inclui turismo, música, gastronomia, charutos, festas e tradição. Diferentemente de outras bebidas destiladas que construíram seu prestígio em torno da sobriedade ou da distinção, o rum oferece sociabilidade, prazer e uma forma de luxo descontraído.

Essa associação estende a cadeia de valor para além da destilaria. Em diversos países do Caribe, os centros de visitantes combinam história, produção, degustações e lojas. A visita educa o consumidor, aproxima-o de produtos de preço mais elevado e transforma a destilaria em atração turística e plataforma de fidelização. Os festivais especializados ampliam esse ecossistema ao reunir marcas, especialistas e consumidores. Em Porto Rico, a edição de 2026 do Taste of Rum reuniu cerca de 1.800 participantes e apresentou mais de 150 variedades.

Em 2021, o ministro do Turismo da Jamaica propôs transformar essa oferta em uma experiência com vários destinos que conectasse o patrimônio do rum de Cuba, Barbados e Jamaica. A ideia poderia se estender a Porto Rico, à República Dominicana e a outros produtores para diversificar a oferta das economias insulares. A garrafa leva o Caribe ao mundo; o turismo do rum tenta trazer o mundo de volta ao Caribe.

Esse potencial ainda é pouco avaliado. Os países publicam estatísticas sobre exportações e chegadas de visitantes, mas raramente calculam quantos viajantes chegam motivados por destilarias, festivais ou roteiros, quanto gastam e quantos empregos geram. A região produz boa parte da história que o rum vende, embora nem sempre controle as empresas e os canais que transformam essa história em lucros.

O rum começou como um subproduto da economia açucareira e acabou se tornando uma das expressões culturais mais reconhecíveis da América Latina e do Caribe. Sua nova oportunidade não consiste necessariamente em produzir mais cana nem vender mais litros, mas em dominar a fabricação, a distribuição e a narrativa que permite que cada garrafa valha mais.

Da próxima vez que alguém pedir um mojito, uma piña colada, um daiquiri ou um cuba libre, provavelmente estará pensando no sabor, na música ou nas férias. Dentro do copo também haverá séculos de agricultura, comércio, turismo e construção de marcas. A cana-de-açúcar continua sendo o início da história. O verdadeiro negócio começa depois.

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Escritor e consultor em comunicação política e institucional. Analisa a política, a sociedade e a dinâmica da mobilidade na América Latina, com ênfase em suas implicações institucionais e na construção da comunidade política.

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