Marco Rubio encerrou recentemente em Lima uma rápida turnê pela América do Sul — com paradas anteriores em Bogotá e Quito — formalizando a adesão do Peru ao “Escudo das Américas”, a coalizão de segurança regional promovida por Washington contra o narcotráfico e o crime organizado. Trata-se de uma foto que representa um novo alinhamento hemisférico: a presidente conservadora Keiko Fujimori, poucas semanas após assumir o poder, selando seu primeiro grande acordo internacional com os EUA.
Mas por trás da foto há dois dados que devem ser levados em conta. O primeiro: Fujimori venceu a eleição presidencial por apenas 49.641 votos, uma das margens mais estreitas da história eleitoral peruana. A segunda: quinze dos dezenove ministros de seu gabinete têm investigações em andamento, processos anteriores ou antecedentes criminais. Certamente, Washington tem razões geoestratégicas de peso para se aproximar de Lima neste novo momento político. Mas a solidez dessa aproximação depende menos do que os EUA decidirem e mais da governabilidade que o novo governo do Peru conseguir manter.
A atração é real. O Peru possui reservas de lítio, cobre e um porto (Chancay) construído com capital chinês que já opera como um nó logístico do Pacífico Sul. Em um momento em que Washington busca diversificar as cadeias de abastecimento e reduzir sua dependência de minerais críticos chineses, Lima oferece uma alternativa sólida e mais próxima. A isso se soma a agenda de segurança regional: o Departamento de Estado enviou uma delegação de alto nível à posse de Fujimori, liderada pelo subsecretário Christopher Landau, e anunciou mais apoio contra o crime organizado transnacional, incluindo o ELN, Los Choneros, o Tren de Aragua, entre outras organizações designadas pelo governo Trump como terroristas.
Mas o que o Peru realmente ganha com isso, e com que margem de manobra conta um governo sem maioria própria no Congresso? O chamado “Corolário Trump”, além dos fatores determinantes que têm para a política regional e a Segurança Nacional dos EUA, não é um roteiro ordenado, nem previsível. As divergências dentro e fora dos círculos políticos de Washington, incluindo setores do próprio Partido Republicano, questionam se a militarização da luta antidrogas na região realmente atende aos interesses de longo prazo dos EUA, além do efeito simbólico.
Por sua vez, para Lima, isso significa negociar com uma potência cuja prioridade pode mudar de um trimestre para outro, algo que o Peru já vivenciou em abril de 2025, quando o regime de tarifas de até 50% afetou as exportações de cobre antes de ser parcialmente revertido meses depois.
Esse não é um problema novo; desde 1990, o vínculo entre Washington e Lima passou por três etapas: a ascensão e a queda de Alberto Fujimori, marcadas pela derrota do Sendero Luminoso, mas também pelo autogolpe de 1992 e pela corrupção de Vladimiro Montesinos; uma fase de abertura comercial e disciplina fiscal entre 2001 e 2016, coroada pelo Tratado de Livre Comércio assinado em 2009; e a última década, a dos “presidentes sem parlamento”. Um antecedente do período de maior instabilidade de sua história recente. Em dez anos, o Peru teve nove chefes de Estado.
Esse é o verdadeiro obstáculo para qualquer “janela de oportunidade” que se queira propor a partir de Washington: não a vontade política, que existe em ambas as capitais, mas a persistente fragilidade institucional peruana. Um Congresso fragmentado não perdoa erros, e um gabinete com antecedentes judiciais dá munição imediata à oposição para questionar e frear qualquer iniciativa ou acordo que implique um alinhamento com Washington.
A isso se soma a ameaça que o próprio governo peruano coloca no centro de sua agenda: o crime organizado, não mais como um problema de segurança pública, mas como um risco direto à governabilidade do país. Essa realidade, marcada por homicídios e extorsões, se acentuou nos últimos anos e corrói a capacidade do Estado de governar seu próprio território.
Nesse contexto, Washington deveria evitar dois erros. O primeiro: tratar a relação com o Peru apenas como mais uma peça da rivalidade com a China, ignorando a forte presença chinesa no setor de mineração, que não vai desaparecer. De fato, a reação à viagem de Rubio já confirma isso: a embaixada chinesa em Lima, sem mencioná-lo pelo nome, advertiu que o hemisfério ocidental “não é o quintal de ninguém” e defendeu o direito dos países latino-americanos de escolher livremente seus parceiros.
O segundo erro é confundir a arquitetura de segurança regional com um compromisso firme. O Peru, embora não tenha feito parte dos signatários originais do Escudo das Américas — a coalizão que Trump lançou em março —, teve sua adesão formalizada por Rubio nesta visita. Trata-se de um fato com real peso estratégico para o reajuste das alianças no hemisfério, e não de um simples gesto protocolar. Mas a adesão a uma coalizão não equivale automaticamente a uma cooperação operacional: persistem dúvidas sobre qual será, de fato, a participação dos EUA depois que a foto for tirada. A confusão de nomes também não ajuda: a força militar operacional do SOUTHCOM na região, antes chamada de Southern Spear, foi rebatizada em agosto como Força-Tarefa Conjunta do Hemisfério Ocidental, uma mudança que reflete até que ponto essa arquitetura de segurança está sendo construída à medida que avança.
Além disso, convém não perder de vista que a agenda desta viagem não se limitou à segurança. Rubio instou Lima a priorizar a tecnologia norte-americana de inteligência artificial em detrimento da oferta chinesa e acrescentou à conversa bilateral a cooperação diante dos efeitos climáticos do El Niño. Sinais ainda modestos, mas que apontam para uma direção mais ampla: uma relação que não dependa exclusivamente da luta antidrogas e da geopolítica de blocos.
Rubio leva de Lima a imagem de que precisava: um novo aliado conservador, que se soma a Bogotá e Quito, os outros dois destinos de sua viagem. Fujimori, por sua vez, fica com o problema real. A história recente do Peru mostra que nenhum cálculo estratégico em Washington sobrevive por muito tempo a uma crise de governabilidade em Lima. A possibilidade de uma aproximação real existe, e agora é mais concreta do que há um mês. Se ela se consolidará ou não, dependerá do desempenho político do governo de Fujimori.










