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Na América Latina, o futuro do trabalho também passa pelos cuidados

O envelhecimento acelerado da América Latina exigirá que os cuidados se tornem uma prioridade social e econômica, com potencial para gerar milhões de empregos.

A América Latina e o Caribe avançaram significativamente na visibilidade e no reconhecimento da agenda dos cuidados. O que por muito tempo permaneceu relegado ao âmbito privado começa a ser reconhecido como uma questão central para a sustentabilidade da vida, a igualdade de gênero, a justiça social e o desenvolvimento sustentável. No entanto, o debate sobre os cuidados na região adquire uma nova dimensão diante do rápido envelhecimento da população. Segundo um relatório recente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o número de pessoas com 65 anos ou mais que precisam de apoio para realizar atividades cotidianas poderá triplicar até 2050. Esse cenário apresenta um desafio central: quem prestará cuidados nas próximas décadas e como esse trabalho será organizado?

Cuidar é sustentar a vida

De acordo com a socióloga e pesquisadora Karina Batthyány, uma das principais especialistas em cuidados da região, o cuidado pode ser entendido como uma relação de ajuda orientada o bem-estar físico, afetivo e emocional de crianças, pessoas dependentes e, em um sentido mais amplo, de todas as pessoas ao longo do ciclo de vida.

O cuidado tem, portanto, várias dimensões. É material, pois envolve atividades concretas como alimentar, higienizar, acompanhar ou auxiliar outra pessoa. É econômico, pois essas tarefas exigem tempo e recursos e geram custos diretos e indiretos. E é também afetivo, pois se desenvolve por meio das relações entre quem cuida e quem recebe cuidados.

Mas há dois elementos fundamentais para compreender seu alcance. Em primeiro lugar, o cuidado é uma relação de interdependência. Em segundo lugar, os papéis de quem cuida e de quem recebe cuidados não são permanentes. Ao longo da vida, todas as pessoas cuidam e são cuidadas.

A partir dessa perspectiva, pensar no cuidado permite superar a ideia de que se trata de uma necessidade excepcional, associada unicamente à infância, à velhice ou à dependência. Cuidar, sob uma visão integral, implica compreender que se trata de uma atividade que faz parte da vida cotidiana e da reprodução de nossas sociedades.

O cuidado como direito

Segundo a CEPAL, na América Latina e no Caribe, as mulheres continuam assumindo de forma desproporcional as tarefas de cuidado, tanto as não remuneradas no lar quanto as remuneradas.

Embora vários países tenham desenvolvido políticas públicas de cuidados, estas ainda não conseguiram transformar suficientemente a divisão sexual do trabalho. Assim, cabe destacar que o cuidado constitui não apenas uma questão familiar, mas também um problema de desigualdade econômica e de gênero. Nesse contexto, o reconhecimento jurídico e político do cuidado como um direito permitiu avanços significativos em nível regional.

Em 2025, a Corte Interamericana de Direitos Humanos reconheceu formalmente esse direito como um direito humano autônomo em sua Opinião Consultiva OC-31/25. Da perspectiva do cuidado como direito, cuidar, receber cuidados e praticar o autocuidado são dimensões fundamentais de uma vida digna.

Na região, esse processo foi impulsionado, entre outros atores, pelos movimentos feministas nacionais e transnacionais e por organismos internacionais como a CEPAL, e foi propiciado pela consolidação do campo de pesquisa sobre cuidados no início do século XXI.

Além disso, segundo a CEPAL, 16 países da América Latina e do Caribe avançaram em marcos normativos sobre cuidados, e oito já contam com leis específicas. No entanto, a oferta de serviços continua insuficiente: embora o Uruguai e a Costa Rica tenham desenvolvido sistemas nacionais de cuidados de longa duração, em grande parte da região os serviços públicos ainda são limitados e a oferta privada é inacessível para amplos setores da população.

O desafio demográfico e o cuidado como um dos trabalhos do futuro

A América Latina e o Caribe estão envelhecendo a um dos ritmos mais acelerados do mundo. Segundo o Relatório “Quem cuida? Como apoiar e reconhecer quem cuida de idosos na América Latina e no Caribe”, publicado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), pela OCDE e pela Agência Francesa de Desenvolvimento, atualmente cerca de oito milhões de pessoas com mais de 65 anos precisam de apoio para as atividades cotidianas, número que poderá chegar a 23 milhões em 2050.

Essas necessidades abrangem desde atividades básicas da vida diária, como comer, tomar banho, vestir-se, usar o banheiro ou locomover-se, até atividades instrumentais mais complexas, como cozinhar, tomar medicamentos ou administrar as finanças pessoais. Além disso, à medida que as populações envelhecem, as necessidades de cuidados tendem a se tornar mais complexas, devido ao aumento da dependência funcional e da prevalência de doenças crônicas.

O problema é que o modelo atual continua dependendo em grande parte das famílias e, especialmente, das mulheres. E as condições que sustentavam esse modelo estão mudando: a participação feminina no mercado de trabalho aumenta, as taxas de fertilidade diminuem e as estruturas familiares se tornam mais dispersas.

Segundo o relatório do BID mencionado, menos de 20% dos idosos que necessitam de cuidados recebem serviços públicos. Até 2050, se as políticas públicas não forem ampliadas e o acesso a serviços remunerados não for facilitado, uma em cada três pessoas entre 45 e 64 anos poderá ter que assumir responsabilidades de cuidados familiares. Isso exerce uma pressão crescente sobre as famílias, mas também sobre os sistemas de proteção social, os mercados de trabalho e as finanças públicas. A questão dos cuidados, portanto, não pode se limitar às políticas sociais. Ela também deve ser incorporada ao debate econômico.

A América Latina deverá considerar os cuidados como parte da infraestrutura social e produtiva necessária para enfrentar o envelhecimento demográfico. A crescente demanda por cuidados exigirá mais serviços, tecnologias, infraestrutura e profissionais especializados. Segundo um estudo recente da CEPAL e da Organização Internacional do Trabalho (OIT), uma expansão das políticas e dos serviços de cuidados poderia gerar cerca de 31 milhões de empregos até 2035, em sua maioria formais. Além disso, como aponta o relatório do BID mencionado anteriormente, a região deverá ampliar e profissionalizar sua força de trabalho dedicada aos cuidados de idosos em situação de dependência, passando de cerca de 3 milhões para 14 milhões de trabalhadores até 2050, melhorar suas condições de trabalho e apoiar também aqueles que prestam cuidados dentro das famílias.

Assim, os cuidados não devem ser vistos apenas como um custo social, mas também como um setor estratégico que requer investimento, gera emprego e pode contribuir para o desenvolvimento econômico da região. Eles são essenciais porque permitem trabalhar, estudar e participar da sociedade, além de gerarem novas oportunidades de emprego, investimento, inovação e desenvolvimento de serviços e tecnologias.

Em consonância com os avanços em matéria de igualdade de gênero e do direito humano ao cuidado, a região tem também a tarefa de transformar os cuidados em uma responsabilidade social compartilhada e em um componente estratégico de um modelo de desenvolvimento mais sustentável e inclusivo.

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Cientista política. Professora de Relações Internacionais e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade (CPDA) da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Doutora em Ciência Política pela Universidade Complutense de Madrid.

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