Alta Verapaz, Guatemala – A primeira vez que Ana María Maas trouxe um bebê ao mundo, ela tinha 16 anos e ninguém havia lhe ensinado como fazê-lo. Hoje, aos 62 anos, atende gestantes com total destreza, acompanha-as às consultas pré-natais e sabe como evitar hemorragias pós-parto.
Tudo começou num dia em que foi impossível chamar uma ambulância e uma mulher precisava de ajuda para dar à luz. Isso ocorreu na comunidade de Samanzana, em Cobán, Alta Verapaz, na região central da Guatemala.
Nesse departamento, aproximadamente 4 em cada 10 partos ocorrem em casa ou na comunidade, principalmente em áreas rurais e indígenas, onde é bastante difícil ter acesso a serviços de saúde.
“Eu não tinha nenhum equipamento e não sabia como fazer. Nem mesmo um pano, porque foi assim: rápido”.
Depois daquele primeiro parto, as pessoas começaram a procurá-la. Apesar de ser jovem, ela atendia os partos de muitas pessoas; no entanto, não conhecia ninguém que pudesse lhe dar treinamento.
Isso mudou entre os anos de 1985 e 1990. “Um enfermeiro veio até mim e disse que, como eu atendia muitos partos, poderia me capacitar para ser uma parteira melhor e ter uma tesoura, uma pinça.”
Ana María continuou se interessando pelo assunto. Recebeu treinamento da Cruz Vermelha e do Sistema Integral de Atenção à Saúde (SIAS) do Ministério da Saúde Pública e Assistência Social (MSPAS). Desde então, ela continua aprendendo e aprimorando sua prática. Ela pode dizer com orgulho que nunca houve nem uma morte materna nem uma morte infantil.
Em comunidades como a de Ana María, um dos maiores riscos para as mulheres é a hemorragia pós-parto, que historicamente tem estado entre as principais causas de morte materna no país. O tempo que leva para transportar uma mulher até o hospital pode fazer a diferença entre a vida e a morte. A hemorragia pode ocorrer sem aviso prévio, mesmo em gestações sem complicações aparentes.
Ana María se lembra das dificuldades, mas a situação vem mudando há quatro anos. Uma estratégia comunitária do Programa Nacional de Saúde Reprodutiva do Ministério da Saúde chegou para fazer a diferença em seis departamentos do país, incluindo Alta Verapaz. Desde então, utiliza-se um medicamento chamado misoprostol para prevenir essas hemorragias em partos atendidos em casa.
Ana María conta que, nesse período, percebeu uma melhora no bem-estar das pacientes.
“Cinco minutos depois que o bebê nasce, trago um copinho de água morna e dou o misoprostol a elas. Elas dizem que sentem tontura e dor de estômago. Fico ali com elas, os sintomas passam e logo pedem comida”.
Recomendado pela Organização Mundial da Saúde, o misoprostol atua estimulando a contração do útero após o parto, o que reduz o risco de sangramento excessivo. Não requer refrigeração nem aplicação injetável.
O foco é a prevenção. Em casos de gestações de risco e emergências, a paciente deve ser atendida em um hospital.
O acompanhamento do UNFPA à estratégia comunitária de uso do misoprostol “busca garantir que sua implementação seja respaldada pelas melhores evidências técnicas e científicas disponíveis, bem como por protocolos claros e capacitação adequada, de modo que cada parteira conte com ferramentas seguras e eficazes”, destaca Daniel Frade, especialista técnico em saúde reprodutiva do UNFPA na Guatemala.
Ana María recebeu treinamento sobre o uso do misoprostol, a identificação de sinais de alarme, o momento oportuno para a administração do medicamento e a coordenação com os serviços de saúde em caso de complicações.

Gilma Ayala, responsável pela estratégia de misoprostol na DRIS de Alta Verapaz, conduz uma sessão de capacitação sobre o uso do medicamento em partos comunitários.
Gilma Ayala, responsável pela estratégia de uso do misoprostol na Diretoria de Serviços de Saúde (DDRISS) de Alta Verapaz, afirma: “Atualmente, conseguimos cobrir aproximadamente 55% dos partos comunitários com o uso do misoprostol. Os resultados confirmam que essa é uma intervenção fundamental para reduzir o risco no âmbito comunitário, e estamos trabalhando para ampliá-la progressivamente dos 8 para os 19 distritos do departamento”,
Desde sua introdução no departamento, a hemorragia pós-parto diminuiu como causa de mortalidade materna.
Em um ano, Ana María atende aproximadamente 15 mulheres. Ela prepara chás naturais para elas ou aquece folhas de plantas medicinais com uma pedra quente e as coloca no corpo delas para aliviá-las até que se recuperem.
“Meus filhos me dizem: ‘Não trabalhe mais, mamãe, pare’. Mas eu não consigo… porque gosto do meu trabalho”. Suas mãos querem continuar recebendo meninos e meninas das comunidades de Cobán. Ela tem feito parte da transformação de sua comunidade e de uma vida melhor para as mulheres de quem cuida: com menos dor, menos medo, menos emergências e mais proteção.










