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O paradoxo da desinformação: como o caso venezuelano desmente a narrativa de fraude eleitoral de Trump

Trump invoca o caso da Venezuela para sustentar sua narrativa de fraude eleitoral, mas as evidências mostram que a tecnologia tem sido fundamental para desmascará-lo.

Em um discurso recente na Casa Branca, qualificado por ele mesmo como o “Dia da Revelação”, Donald Trump voltou a colocar a integridade eleitoral no centro do debate público. Ao divulgar documentos da Agência Central de Inteligência (CIA) sobre a capacidade do governo venezuelano de manipular eleições, o presidente dos Estados Unidos tentou estabelecer uma conexão narrativa entre as vulnerabilidades tecnológicas no exterior e a suposta fragilidade do sistema americano. No entanto, uma análise rigorosa dos documentos citados e, sobretudo, da história eleitoral recente da Venezuela revela uma realidade diametralmente oposta: a tecnologia de votação, longe de ser o veículo da fraude, tem sido o instrumento mais eficaz para expô-la.

A lacuna entre o discurso e o documento

A estratégia de Trump baseia-se em uma leitura seletiva e tendenciosa do relatório da CIA. Embora o presidente afirme que houve uma “conspiração específica” do regime de Nicolás Maduro para alterar resultados por meio da tecnologia, o relatório desclassificado é muito mais cauteloso. O documento aponta que o governo venezuelano tinha “certa capacidade” de manipular sistemas de votação eletrônica dentro de seu próprio território, mas adverte explicitamente que não há evidências definitivas de fraude eletrônica em grande escala.

Ainda mais crucial é a conclusão da CIA quanto à possibilidade de exportação dessas supostas manipulações: nem o governo venezuelano nem a empresa Smartmatic tinham capacidade para alterar eleições fora da Venezuela. Apesar disso, Trump utiliza essas conclusões para semear dúvidas sobre as eleições de meio de mandato e para insistir na teoria — sistematicamente rejeitada pelos tribunais — de que lhe roubaram as eleições de 2020 nos Estados Unidos. Essa narrativa de fraude, historicamente alimentada por meios de comunicação como a Fox News — que teve de pagar 787 milhões de dólares à Dominion Voting por divulgar teorias da conspiração sem provas —, busca minar a confiança institucional para fins políticos imediatos.

A tecnologia como bode expiatório na narrativa da fraude

Acusar a tecnologia de facilitar a fraude eleitoral é uma tática empregada por líderes de diversas tendências políticas. Nas recentes eleições colombianas, o presidente Gustavo Petro semeou dúvidas constantes sobre a tecnologia da Registraduría Nacional e apontou uma suposta opacidade no código-fonte do software de apuração como prova de uma possível manipulação. Na direita, no Brasil, Jair Bolsonaro questionou sistematicamente a integridade das urnas eletrônicas, apesar de esse sistema ter validado suas próprias vitórias anteriores durante décadas sem incidentes documentados.

Assim como Trump nos Estados Unidos, esses líderes utilizam a complexidade tecnológica para criar a sensação de um “governo nas sombras” ou de conspirações algorítmicas. O objetivo não é provar a fraude, mas gerar desconfiança suficiente para que qualquer resultado adverso possa ser interpretado como uma conspiração. Essa normalização do não reconhecimento dos resultados eleitorais causa um dano institucional profundo: corrói a legitimidade da alternância democrática e transforma a tecnologia em alvo fácil das frustrações políticas de qualquer lado.

Rumo a uma reforma eleitoral séria nos Estados Unidos

É justo reconhecer, como argumenta a ala republicana, que existem aspectos do sistema eleitoral norte-americano que podem ser melhorados, algo que deve ser abordado com seriedade para fortalecer a confiança pública. A proposta de exigir um documento de identidade com foto e um certificado de cidadania para votar, bem como o debate sobre as restrições ao voto por correspondência, são totalmente justificados se apresentados como mecanismos de segurança e não como ferramentas de supressão de eleitores.

Um sistema eleitoral robusto deve garantir que apenas cidadãos qualificados participem e que o processo de identificação seja infalível. No entanto, essas melhorias necessárias não devem ser confundidas com a validação de teorias da conspiração sobre ataques cibernéticos em massa ou “governos nas sombras” que manipulam as urnas eletrônicas. Como bem indica o relatório da CIA, os repositórios de dados e os registros eleitorais são áreas de preocupação legítima diante de possíveis ataques cibernéticos estrangeiros, mas isso é muito diferente de afirmar que o sistema está “com defeito” ou “corrompido” por definição.

Venezuela: a tecnologia como escudo contra o autoritarismo

A maior paradoxo do discurso de Trump é que a experiência venezuelana dos últimos vinte anos demonstra que um sistema automatizado bem projetado é dificilmente manipulável (sem deixar rastros), mesmo para um regime autocrático que controla todas as instituições. Apesar de o regime de Maduro dominar o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) e a Câmara Eleitoral do Supremo Tribunal de Justiça, os mecanismos de segurança da tecnologia de votação permitiram que a oposição documentasse e comprovasse a fraude de forma irrefutável.

O primeiro marco dessa resistência tecnológica ocorreu nas eleições parlamentares de 2015. Naquela época, apesar das inabilitações e das vantagens concedidas ao governo, a robustez do sistema permitiu que a oposição obtivesse uma vitória esmagadora que o regime não conseguiu ocultar. A rastreabilidade do voto e a presença de testemunhas foram fundamentais para validar a vontade popular.

Em 2017, a tecnologia permitiu documentar duas fraudes de natureza diferente. Primeiro, na eleição da Assembleia Nacional Constituinte, a própria empresa Smartmatic denunciou que os números de participação haviam sido inflacionados em pelo menos um milhão de votos. A empresa conseguiu detectar isso porque o sistema contava com auditorias e controles de transmissão que o CNE não conseguiu contornar internamente sem deixar rastros. Meses depois, nas eleições para governador do Estado de Bolívar, o candidato Andrés Velásquez comprovou a fraude manual graças às atas impressas pelas máquinas.

A fraude de 2024: a derrota da narrativa oficial

O caso mais recente e contundente ocorreu em 28 de julho de 2024. Nessa ocasião, o sistema automatizado de votação atuou como um verdadeiro escudo contra a fraude. A estratégia da oposição democrática, sob a liderança de María Corina Machado e Edmundo González, concentrou-se em aproveitar o comprovante de papel emitido por cada máquina.

Por meio de uma sofisticada rede de cidadãos (“comanditos”), a oposição conseguiu coletar, digitalizar e publicar mais de 83,5% das atas de apuração. Essas atas, que contam com mecanismos de segurança como códigos QR e assinaturas digitais, demonstraram uma vitória contundente de Edmundo González com 67% dos votos contra 30% de Maduro. O CNE, alegando um improvável “ataque cibernético”, recusou-se a publicar os resultados detalhados, mas a tecnologia já havia feito seu trabalho: os comprovantes em papel e as atas impressas desmontaram a narrativa oficial em questão de horas.

Especialistas independentes da ONU e do Centro Carter confirmaram que as atas publicadas pela oposição apresentam todos os protocolos de segurança originais do CNE, o que torna impossível que tenham sido falsificadas em massa. Isso confirma que, mesmo quando um regime controla a empresa fornecedora de tecnologia (como ocorre atualmente com a argentina ExClé) e o servidor de totalização, a verificação cidadã do rastro em papel impede que uma fraude seja bem-sucedida aos olhos do mundo.

A única garantia são os ambientes controlados e auditáveis

Trump está utilizando um documento da CIA que não conclui a existência de fraude eletrônica para alimentar uma narrativa que enfraquece a democracia norte-americana. A verdadeira lição que a Venezuela nos deixa é que a tecnologia de votação, quando inclui auditorias exaustivas e um registro em papel verificável, é a maior garantia de transparência.

Mesmo no contexto de um regime autocrático que sequestrou o Poder Eleitoral, a precisão tecnológica e a mobilização cidadã para proteger as atas permitiram que a verdade prevalecesse sobre a desinformação.

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Diretor executivo da Transparência Eleitoral. Graduado em Relações Internacionais pela Universidade Central da Venezuela (UCV). Candidato a Mestre em Estudos Eleitorais pela Universidade Nacional de San Martín (UNSAM / Argentina).

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