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Quem protege as condições do debate público?

A desinformação e os algoritmos estão transformando o debate público na América Latina. Proteger a democracia exige fortalecer o jornalismo, a transparência das plataformas, a alfabetização midiática e a confiança institucional.

Alguns dias antes de uma eleição, chega uma mensagem a um grupo familiar no WhatsApp. O texto afirma que já foram detectadas cédulas marcadas, cita supostas “fontes internas” e anexa uma imagem que parece ser um ata eleitoral. Ninguém assina a informação. Não aparece nenhum meio de comunicação reconhecível. No entanto, a mensagem circula, gera indignação e se multiplica antes que a autoridade eleitoral possa desmenti-la.

A cena ilustra um fenômeno cada vez mais frequente na América Latina e no Caribe. A região nunca teve tantas oportunidades de acessar informações, participar do debate público e se expressar. Mas também nunca foi tão difícil construir um diálogo público baseado em informações verificáveis.

Mais do que se digitalizar, a esfera pública se “plataformizou”. O avanço das plataformas digitais e da inteligência artificial ampliou o acesso à informação, mas também transformou quem fala, como os conteúdos circulam, quais mensagens ganham visibilidade e com que velocidade as opiniões se formam. Uma parte crescente do debate público ocorre hoje em plataformas privadas governadas por algoritmos e modelos de negócios que priorizam a atenção em detrimento do interesse público. A esfera pública tornou-se mais fragmentada, personalizada e automatizada.

Essa mudança tem implicações profundas para a democracia, como mostra o recente Relatório sobre Democracia e Desenvolvimento 2026 do PNUD. A democracia requer condições mínimas para que as pessoas formem seu julgamento, comparem informações, ouçam posições diferentes e aceitem decisões coletivas, mesmo que não coincidam com suas preferências. Quando essas condições se enfraquecem, também se enfraquece a capacidade de deliberar e construir confiança.

Embora se trate de um fenômeno global, na América Latina e no Caribe o rápido avanço da inteligência artificial e da desinformação tem o potencial de acelerar vulnerabilidades que a região já arrasta há décadas: baixa confiança institucional, alta polarização, profundas desigualdades e um ecossistema informativo enfraquecido. A tecnologia não cria essas fraturas. Ela as amplifica.

Durante décadas, o ecossistema informativo foi organizado principalmente por meios de comunicação reconhecíveis e jornalistas identificáveis. Esse ecossistema nunca foi perfeito. A região conheceu a concentração da mídia, os viéses editoriais e a influência do poder político e econômico. No entanto, oferecia mecanismos relativamente estáveis para contrastar as informações e exigir prestação de contas. Hoje, esse modelo perdeu sua centralidade e enfrenta, além disso, uma perda contínua de confiança. De acordo com o Latinobarómetro, a confiança na imprensa escrita caiu de 45% em 2006 para 38% em 2024. Na televisão, passou de 63% para 41%, e no rádio, de 69% para 44%.

A desinformação contribui para essa erosão porque dificulta a distinção entre informações verificáveis e conteúdos manipulados. A desinformação não é um fenômeno novo. O que mudou foi a velocidade, a escala e o baixo custo com que hoje ela pode ser produzida e difundida. Uma narrativa falsa pode continuar circulando mesmo depois de ter sido desmentida, quando confirma identidades políticas ou alimenta suspeitas pré-existentes.

Na região, 76% da população considera que circulam informações falsas nas redes sociais. No Uruguai, essa percepção chega a 87%; no Chile, a 84%; e no Brasil, na Colômbia e na República Dominicana, a 83%. No entanto, a região vive um paradoxo. Embora a maioria das pessoas declare desconfiar das redes sociais, mais de 60% as utilizam como principal fonte de notícias. Cada vez mais, nos informamos em espaços dos quais desconfiamos.

As consequências vão muito além do ecossistema informativo. Quando desaparece uma base comum de evidências e o debate público passa a se apoiar em percepções fragmentadas da realidade, também se deteriora um dos recursos fundamentais de qualquer democracia: a confiança. A confiança na informação, nas instituições e na legitimidade das decisões coletivas faz parte de um mesmo ecossistema. Quando uma delas se desgasta, as outras também se tornam mais frágeis.

As eleições tornam visível essa fragilidade. A desinformação não precisa alterar a contagem de votos para afetar a democracia. Basta semear dúvidas sobre o processo antes mesmo que haja um resultado. A suspeita pode ser tão prejudicial quanto a manipulação, pois corrói a aceitação das regras compartilhadas nas quais se baseia toda democracia.

Proteger as condições do debate público é, no fundo, proteger a capacidade das democracias de lidar com suas divergências. A democracia não depende do desaparecimento do conflito. Depende da existência de um espaço compartilhado para lidar com ele. Proteger esse espaço não é responsabilidade de um único ator. É necessário fortalecer todo o ecossistema democrático: um jornalismo independente capaz de verificar, contextualizar e investigar; plataformas mais transparentes e responsáveis; cidadãos com maior alfabetização midiática e digital; e instituições capazes de gerar confiança. O desafio não consiste em controlar o debate público, mas em garantir que ele continue sendo livre, plural e informado.

Este artigo apresenta um resumo do Relatório sobre Democracia e Desenvolvimento, intitulado “Democracias sob pressão: Reimaginando os futuros da democracia na América Latina e no Caribe 2026”, elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) na América Latina e no Caribe.

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especialista em políticas no Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) para a América Latina e o Caribe.

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