Eleições no Chile: a luta pelo segundo lugar

Em 21 de novembro, os chilenos irão às urnas para eleger o presidente, os parlamentares e os conselheiros regionais. Termina o mandato de Sebastián Piñera, que detém uma baixíssima popularidade que oscila em torno de 10% na maioria das pesquisas. 

Sete candidatos concorrem às eleições presidenciais, mas a verdadeira disputa se concentra em três: o jovem Gabriel Boric (35), representante do “Apruebo Dignidad”, uma aliança que reúne a chamada Frente Ampla (FA) com o partido comunista. Ele é líder nas pesquisas com porcentagens que variam entre 20% e 30%

Vários grupos coexistem na FA, mas os mais influentes expressam uma esquerda pós-Guerra Fria, que além das tradicionais questões sociais acrescenta o meio ambiente, inclusão social e uma visão renovada da gestão estatal. Em grande parte, representa as gerações que cresceram na democracia. 

O candidato do Partido Republicano de extrema-direita, José Antonio Kast, está atualmente em segundo lugar, contra todos os prognósticos.  Ex-deputado da UDI, ele critica o que chama de direita “light”, assumindo posições duras em temas como a imigração – propõe a criação de uma vala fronteiriça –, propõe o reestabelecimento da ordem e é um forte crítico do governo por uma suposta debilidade diante da esquerda. 

Em terceiro lugar vem a democrata-cristã Yasna Provoste, que ganhou as primárias do que resta da antiga Concertación. A senadora ganhou amplamente dos candidatos do PS, do PPD e do radicalismo, em uma primária onde participaram pouco mais de 150 mil pessoas. Ela aposta na mudança com governabilidade.

A luta pelo segundo lugar

No Chile, se um candidato não obtiver 50% mais um no primeiro turno, é convocado um segundo turno com os dois primeiros candidatos. É evidente que nenhum dos dois vencerá no primeiro turno, portanto, a luta se resumirá a quem chegar em segundo lugar. Kast ou Yasna.  O segundo turno será outra eleição.

Cabe mencionar que no Chile o voto é voluntário e poucas pessoas votam, uma expressão, entre outras coisas, do descrédito da política e também do individualismo que emana do modelo econômico, onde o público é relegado para um segundo plano. Na consulta mais votada, o plebiscito que aprovou a Convenção Constituinte, cerca de 51% do eleitorado votaram, pouco mais de 7,5 milhões de cidadãos. Na eleição que posteriormente elegeu os constituintes, menos votaram, cerca de 41%, pouco mais de 6 milhões. Acrescentemos que tudo isso tem sido em tempos de pandemia.

Os demais candidatos têm pouca escolha. Sichel, o candidato do governo, apesar de ter vencido em uma primária em que mais de um milhão de eleitores se apresentaram, entrou em colapso em algumas semanas, em grande parte devido a seus próprios erros e também por causa do fardo de ser representante do governo mais impopular dos últimos anos. 

Isto explica a migração dos eleitores de direita para Kast, que se traduzirá em muitos votos presidenciais para ele e um voto parlamentar para a direita tradicional. Também em sua quarta tentativa está o social-democrata Marco Enríquez Ominami, que tem poucas chances, embora se destaque por sua experiência e sua audácia comunicacional. Os outros são candidatos menores.

Um entorno muito dinâmico

O Chile se encontra em uma conjuntura onde convivem dois processos institucionais muito bem definidos com regras e cronogramas: as próprias eleições e o processo constituinte. Este último começou a trabalhar no conteúdo e até meados do próximo ano terá que apresentar o texto da nova constituição para ser ratificado em um referendo. 

Estas são as formalidades institucionais. Porque desde março de 2020 o Chile está em uma pandemia e, além disso, em meio a uma situação econômica difícil. As quarentenas prolongadas derrubaram a economia e, por ser uma economia de exportação, a ruptura do comércio internacional afetou-a mais do que em outras partes. 

Além dos processos formais já descritos, a conjuntura chilena é afetada por outras variáveis que têm influência na campanha eleitoral: a imigração, a situação da Araucanía, a emergência do medo da inflação e da violência, e a situação presidencial.

Mais de 1,5 milhões de migrantes chegaram ao Chile nos últimos anos: haitianos, colombianos, dominicanos, cubanos e, é claro, um grande número de venezuelanos que se somam aos tradicionais peruanos e bolivianos. Nos últimos tempos, o afluxo ilegal aumentou, especialmente ao longo da fronteira com a Bolívia, e deu origem a dolorosas cenas de racismo e xenofobia.

Em Araucanía, as justas demandas do povo mapuche por inclusão se mesclam com todos os tipos de ilegalidades, incluindo roubo de madeira e ataques incendiários. A radicalidade dos incidentes é acompanhada por uma inépcia surpreendente por parte do governo para lidar com o problema. O presidente, por sua vez, foi constitucionalmente acusado de conflitos de interesse pela compra pouco transparente de uma empresa de mineração através de paraísos fiscais. A Câmara de Deputados votará antes das eleições, e é provável que a aprove. 

Neste quadro complexo, emerge um fator subjetivo: o medo de um renascimento da violência urbana que minou parcialmente as amplas mobilizações cidadãs na primavera de 2019. Os saques e assaltos, embora sejam uma minoria, são devastadores em uma sociedade acostumada com a disciplina social. Marco Enríquez resume bem: cada pedra jogada é mais um voto para Kast. O medo emerge, não é possível medi-lo, mas ele compete cada vez mais com o desejo de mudança que majoritariamente expressou o Chile nos últimos tempos.

Nesta conjuntura dinâmica do Chile, onde as questões eleitorais se misturam com o impacto da migração e os ecos da Araucanía, acompanha a precariedade de um governo que está politicamente sozinho em meio a uma sociedade que tende a polarizar-se. Paralelamente, a Convenção Constituinte inicia seus trabalhos para construir o novo pacto social que será expresso na nova constituição.

*Tradução do espanhol por Maria Isabel Santos Lima

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