O “buraco negro” do Equador

Todas as províncias tropicais do Equador – Esmeraldas, Guayas e Santo Domingo de los Tsáchilas – estão em estado de exceção há um mês. Mas o terror não para. Recentemente, houve um tiroteio no bairro de Pascuales, em Guayaquil, entre membros da Polícia Nacional e membros da gangue Los Tiguerones, agrupação que assinou um acordo de cessar-fogo e paz com outras cinco organizações criminosas, todas vinculadas ao cartel Jalisco Nueva Generación, um dos maiores cartéis do México. Este incidente se soma ao falecimento de Leandro Norero, integrante de outra organização criminosa equatoriana, os Ñetas, que foi o vínculo com o cartel mexicano e porta-voz das quadrilhas de narcotraficantes com o governo de Rafael Correa durante as negociações de paz em 2009. Que mensagens essas escaramuzas enviam às instituições do Equador?

A pesquisadora da Universidade Pedagógica Estatal de Berdyansk na Ucrânia, Tamara Makarenko, afirma em “The Crime-Terror Continuum: Tracing the Interplay between Transnational Organised Crime and Terrorism” que há um “buraco negro” na institucionalidade do país. Trata-se de uma brecha através da qual os terroristas se espremem para instalar, dentro da democracia, um estado criminoso.

Desde o fim da Guerra Fria e suas consequências, o crime organizado tem se tornado cada vez mais a principal fonte de renda para grupos terroristas em todo o mundo. Tamara Makarenko assegura que esta ligação se produz no uso direto do crime como fonte de financiamento, mas que há outras fontes de acumulação de poder igualmente importantes em alianças para a prestação de serviços entre máfias.

O mecanismo de aliança é a primeira e principal forma de dividir e especializar a força de trabalho entre o crime organizado e o terrorismo. Os grupos criminosos formam alianças com organizações e grupos terroristas buscam alianças com organizações criminosas. Por exemplo, as FARC, embora estiveram mobilizadas até 2016, e na atualidade com um grupo de dissidentes que reivindica sua herança, teceram uma extensa rede de contatos regionais entre os principais partidos e organizações criminosas fora da Colômbia, incluindo grupos mexicanos de narcotráfico frequentemente associados a Joaquín “El Chapo” Guzmán.

Relações similares foram estabelecidas com gangues criminosas russas que contrabandeiam armas para a Colômbia através do ViktorBout, agora condenado nos Estados Unidos por tráfico de armas. Como resultado, alianças relativamente simples baseadas na prestação de serviços específicos evoluíram para relações mais complexas entre grupos criminosos e terroristas.

Entretanto, apesar da existência de alianças entre o crime organizado e grupos terroristas, estes grupos tentam, cada vez mais, cortar esses vínculos. Com o progresso da década de 1990, tornou-se evidente que grupos criminosos e terroristas buscavam modificar suas próprias estruturas e organizações para assumir mais papéis políticos, no lugar de manter suas alianças.

Segundo Tamara Makarenko, grupos criminosos que utilizam o terrorismo como ferramenta operacional e grupos terroristas que realizam atividades criminosas como ferramenta operacional são a equação na cadeia crime-terrorismo. Embora o uso de táticas terroristas remonte à história do crime organizado, a participação de terroristas no crime organizado para lucrar com operações futuras não foi um grande problema até o início dos anos 1990.

O período pós-Guerra Fria agravou a situação e forçou muitos criminosos e terroristas a mudar seu enfoque. Como resultado, grupos criminosos participam cada vez mais em atividades políticas, tentando manipular as condições operacionais de estados cada vez mais fracos para que os países permaneçam fracos, com policiais ou juízes corruptos e sociedades vivendo em um constante sentimento de medo.

A missão das organizações transnacionais narcoterroristas é infiltrar-se nos partidos políticos e nos meios de comunicação, recrutar candidatos, financiar suas campanhas. E, uma vez no poder, negociam acordos de paz para dissolver as estruturas democráticas de controle.

No princípio do século XXI, cada vez mais grupos avançaram para organizações criminosas e terroristas ao mesmo tempo. A máfia albanesa presente na costa oeste sul-americana é um grupo misto, pois suas atividades mostram uma estreita conexão entre o político e o criminoso. A fórmula para a convergência do crime e da política é que os grupos criminosos e terroristas albaneses parecem ter membros intercambiáveis e uma base de recrutamento de operadores, fornecedores e advogados.

Neste contexto, é provável que a máfia albanesa tenha se infiltrado em todas as estruturas institucionais do Equador. Há exemplos em outras partes com uma ordem similar de funcionamento, por exemplo Abu Sayyaf, também conhecido como Al Harakat Al Islamia, que é um movimento secessionista e jihadista com sede no sul das Filipinas; ou o Movimento Islâmico do Uzbequistão, um grupo islâmico radical formado para derrubar o regime presidencial e estabelecer um estado islâmico sob a lei islâmica; e os dissidentes das FARC, uma organização terrorista de extrema-esquerda. Todas essas organizações estão envolvidas no tráfico de drogas, sequestros extorsivos, tráfico de armas e atividades relacionadas ao terrorismo criminoso para influenciar a política em seus países.

Como Makarenko explica, os estados fracos ou falidos facilitam a convergência do crime organizado transnacional e o terrorismo e, em última instância, fornecem refúgio ao grupo convergente. Muitos grupos evoluíram de guerras originadas por motivos ideológicos ou religiosos para guerras motivadas por interesses criminosos e apoiadas por táticas terroristas. Ademais, as organizações criminosas de motivação política ou grupos terroristas comerciais mantêm sua existência e suas atividades contribuem para a instabilidade nacional e/ou regional.

O resultado disso tem sido um aumento do crime organizado internacional e de grupos terroristas de redes internacionais, em particular da Al-Qaeda. Como sequela, segundo Tamara Makarenko, o crime organizado internacional e o terrorismo hoje ameaçam diretamente a segurança do Estado nacional, talvez pela primeira vez na história.

Com isso, todo carregamento de drogas apreendido no Equador tem uma reação violenta nas ruas equatorianas perpetrada pelo grupo narcotraficante prejudicado.

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