O dia que nunca chegaria para Cristina Kirchner chegou

A condenação por denúncias de corrupção da atual vice-presidente e ex-presidente da Argentina, Cristina Fernández de Kirchner, a seis anos de prisão e uma proibição vitalícia de exercer cargos públicos levanta questões importantes sobre a independência dos poderes no país. Esta não é a primeira vez que um ex-presidente é condenado na Argentina, mas também há diferenças significativas com os casos anteriores.

Há obviamente uma grande diferença entre a corrupção e matar pessoas. Em 1985, os membros da junta ditatorial que governou o país durante a Guerra Sucia (1976-1983) foram condenados e presos por seus crimes genocidas. Enquanto isso, em 2001, o presidente peronista Carlos Menem (1989-1999) foi condenado e preso por venda ilegal de armas à Croácia e ao Equador durante a década de noventa.

O caso de Cristina Fernández de Kirchner, entretanto, é diferente, e sua condenação não está relacionada a histórias de violência, mas a acusações de corrupção. Ao contrário dos casos anteriores, a sentença da vice-presidente não é definitiva e é bem provável que venha a ser apelada. Além disso, a vice-presidente em exercício tem imunidade, o que faz com que em um futuro próximo não seja detida como ocorreu com Menem. 

Por que Cristina está sendo condenada agora? Como tantos políticos argentinos, Cristina Kirchner não consegue explicar por que tem tanto dinheiro. Mas para entender o que aconteceu, algo que parecia que nunca aconteceria, é importante entender o contexto específico em que aconteceu.

Ainda que muitas das acusações fossem fortes e claras, até agora a CFK (como é conhecida na Argentina) tinha sido capaz de dobrar à sua vontade o atual governo peronista. Entretanto, o governo de Alberto Fernández que a defende da boca para fora também acabou fornecendo, talvez inconscientemente, o contexto perfeito para que seu julgamento fosse resolvido. Além de um poder judiciário com vínculos com a oposição, somou-se, para tornar a atmosfera ainda mais tensa, o atentado (pouco claro) contra Cristina feito por um grupo de lumpens com preferências neonazistas.

Em uma mensagem acalorada, Cristina Kirchner denunciou “máfias judiciais” e “Estados paralelos”, e embora tenha dito que não iria se aprofundar em questões teóricas, deixou claro que para ela esta é uma questão ideológica. A história do populismo e sua própria história de desvios ideológicos não concorda com sua postura. Nos anos noventa, a maioria dos peronistas concordaram então com Nestor Kirchner que Menem representava uma continuidade histórica com Perón. Nos anos 2000, Néstor Kirchner e Cristina Kirchner renegaram seu passado menemista e se apresentaram como líderes de uma nova era, diametralmente oposta à do menemismo, que havia traído “as bandeiras nacionais”.

Entretanto, quando anos antes Menem liderou o peronismo em direção à direita neoliberal, Cristina Kirchner permaneceu no barco, enquanto declarava abertamente que apoiava o presidente que “abominava… o feminismo” e que a Argentina não corria mais o risco de ser derrotada pelo “infame trapo vermelho dos anos 70”. Anos depois, nos anos 2000, quando tentou encarnar a esquerda populista, Cristina Kirchner questionou a chamada esquerda que se identificava com a cor vermelha enquanto promovia uma esquerda “verdadeira” representada pelos argentinos que vestiam as cores nacionais. Segundo ela, não havia posições legítimas, nem de direita nem de esquerda, além do Kirchnerismo. Concretamente, no populismo, a posição do líder é mais importante do que o conteúdo de seus discursos de mudança.

Após a condenação, ela manteve suas acusações contra a mídia que a criticou e, em particular, contra o jornal Clarín, um dos mais importantes do país, por manipular o Poder Judiciário. Esta é uma história que vem de muito tempo atrás. Durante dez anos, os ex-presidentes Néstor Kirchner e Cristina Fernández de Kirchner lançaram uma ofensiva contra os meios críticos. Passando da demonização à prática, usaram a Administração da Receita Pública para assediar o jornal da oposição com auditorias e, finalmente, com leis antimonopólio que favoreciam uma mídia ideologicamente próxima. Métodos similares, embora mais extremos, foram e ainda são utilizados em países como Venezuela, Nicarágua, El Salvador e Equador.

Além disso, de forma esperada, Cristina Kirchner voltou a acusar o Poder Judiciário de estar contra ela. Vale recordar que o próprio peronismo manipulou o mesmo Poder Judiciário durante os governos de Carlos Menem, Néstor Kirchner e a própria Cristina Kirchner (2007-2015).

Na prática, a vice-presidente não foi capaz de explicar o enorme aumento de seu patrimônio após uma vida inteira dedicada à função pública. Vale recordar que inexplicavelmente sua filha tinha mais de quatro milhões e meio de dólares em dois cofres de segurança em Buenos Aires. A isto se soma o fato de que um amigo de seu marido, um funcionário bancário sem antecedentes empresariais, tornou-se do dia para a noite em um empresário de sucesso e magnata das obras públicas na Patagônia durante os anos 2000.

Diante desta realidade, muitos argentinos acreditam convincentemente que o problema da corrupção não é exclusivo do peronismo ou dos Kirchners, e vinculam o caso a outros da região. Não estou de acordo com os argumentos sobre as supostas semelhanças entre este julgamento e outros casos na América Latina. Talvez o caso mais próximo a este seja o de Donald Trump, no sentido de que, assim como no Partido Republicano, muitos peronistas se alegram silenciosamente com a queda de um ícone populista por corrupção.
Será este julgamento o início de uma investigação mais ampla e mais séria sobre a corrupção na política argentina, um problema que transcende o peronismo? Este também não é o caso. Somente o tempo dirá se esta acusação à vice-presidente tem consequências políticas significativas ou se é apenas mais um caso de “muito barulho por nada” na longa história de corrupção na Argentina.

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