O problema não é Trump

O empate, qualquer que seja o resultado final, que se tem revelado não é um fenômeno temporal. O protagonista da resistência de Trump não é o inquilino da Casa Branca durante os últimos quatro anos. O agente real, mesmo que no final o vencedor constitucional seja Biden, é esse setor que, durante décadas, se considerava uma anormalidade. A dura realidade é que a percepção geral no exterior dos Estados Unidos não recebeu a mensagem de 2016. E talvez ainda não o entenda agora. E, pior ainda, nunca o entenderá, se não for dada atenção às peculiaridades desta sociedade, dramatizada por Trump.   

Assim que a glória de vencer a Segunda Guerra Mundial desvaneceu, a aparente coesão nacional dos Estados Unidos desapareceu. Uma parte seguiu acreditando que havia monopolizado a alma do país, fundada no excepcionalismo, “a luz do farol na colina”. Mas alguns sinais de alerta começaram a soar com a repressão dos chamados comunistas de Hollywood.

Nixon o chamou de maioria silenciosa.

Com os dissidentes silenciados já nos anos 60, o assassinato de Kennedy não foi considerado um perigo para o consenso nacional. Mas um sentimento soterrado exigia sair do armário. Nixon o chamou de maioria silenciosa. Ela permaneceu muda durante a tragédia do Vietnã. Ela convenientemente se drogou com a satisfação do fim da Guerra Fria e da história.

Só então um punhado de romancistas havia se perguntado como Zavalita, o personagem coadjuvante em “Conversa no Catedral”: “em que momento o Peru se ferrou”. Alguns comentaristas ousados se atreveriam aludir tarde demais à reação ao afundamento do Maine em Havana, que levou os Estados Unidos a se espalharem por toda a América Latina, irritando os patriotas cubanos. A consequência, meio século depois, foi a Revolução Castrista.

O establishment de Washington mal hesitou e acreditou que se recuperaria com o fim da Guerra Fria e também “da história”, de acordo com a mitologia de Fukuyama. Mas essa glória efêmera não conseguiu esconder os problemas internos que os sucessivos presidentes norte-americanos não conseguiram corrigir. Desequilíbrios, discriminação, marginalização, desconforto e descontentamento básico sobre a aparição de defeitos no sonho americano foram detectados.

O problema era que as vítimas não eram mais exclusivamente os perdedores tradicionais (negros, hispânicos, nativos), mas também os componentes das camadas anteriormente intermediárias da sociedade. Além disso, foram acrescentados os componentes da elite econômica que parecia não estar satisfeita com as vantagens fiscais de que desfrutavam. Eles também pretendiam controlar o futuro político sem se envolverem em disputas eleitorais, uma função ordinária que deixavam nas mãos de profissionais.    

O resultado das eleições é um retrato nítido de três Américas, cada uma à sua maneira acreditando que tem o direito de ser “grande novamente”, de acordo com o slogan de Trump. Já havia sido notado com a dupla eleição de Obama: o eleitorado potencial havia sido claramente dividido em três.

Um terço tem ficado em casa, sempre.

Um terço tem ficado em casa, sempre. Outra terceira parte votou a favor das várias opções do Partido Democrata. O resto tem se refugiado historicamente nos republicanos, apoiados por aquele setor que não parece responder a linhas partidárias específicas. Agora se equipou com toda a parafernália que capturou metade dos votos nas recentes eleições.    

Mas a novidade da última década, após a defenestração do tradicionalismo dos Bush e afins, não é o aparecimento de Trump. A notícia é a consolidação do protagonismo do terço que Trump despertou. Não é um fenômeno temporário. Na verdade, existe desde que o mito fundador dos Estados Unidos foi questionado por aquele terço que permaneceu adormecido, tímido de protagonismo.

Como uma princesa adormecida, só lhe faltava o beijo de um príncipe ousado, que não estava vinculado a convenções partidárias. Não importa que a princesa tenha se comportado como uma bruxa para os outros dois terços do eleitorado. Essa peculiaridade não importava para Trump, que capturou o papel do príncipe.

Qualquer que seja o resultado oficial da eleição, a verdade é que essa América, antes oculta, continuará à espreita (com mais determinação se Trump vencer). Pressionará para o abandono das alianças tradicionais dos Estados Unidos, rejeitará qualquer esquema de integração regional (apenas reduzido a um pragmático novo NAFTA), continuará a rejeitar o reingresso na UNESCO, na Organização Mundial do Comércio (OMC), na Organização Mundial da Saúde (OMS), e nem mesmo se aproveitará pragmaticamente de seu lugar de privilegio na ONU.

No campo militar, não saberá usar sabiamente o poder “suave” da superioridade militar, jogará perigosamente com o abandono da OTAN, pode se envolver em operações perigosas no Oriente Médio, enganando fatalmente seus aliados úteis. A continuação da aposta de apoio incondicional ao atual governo israelense seria uma aposta com benefício nulo.  Qualquer erro de cálculo com a China e a Rússia pode ser pago com um preço alto, especialmente diante de uma sociedade norte-americana que está farta de excursões bélicas que não devolvem benefícios sociais e só preenchem os túmulos disponíveis em Arlington.

Mas, no caso de uma vitória final efetiva para Biden, a agenda que o novo presidente terá que enfrentar incluiria precisamente a presença latente e permanente da América até agora silenciosa por graça de Trump. Nesse cenário, ele não poderá evitar o espetáculo da destruição social, a divisão em lados irreconciliáveis, a instalação urgente (com autorizações de residência tendendo a sublimar-se na cidadania) dos enormes grupos recentes de imigrantes.

E, em geral, no exterior deve ser entendido friamente que o novo governo estadunidense não será radicalmente diferente do que é considerado essencial para os interesses praticamente imóveis dos americanos. Biden terá que responder às demandas não só de seus eleitores, mas também dos interesses razoáveis do país e das consequentes pressões de sua sociedade.

A Europa, por exemplo, deverá entender que a demanda pelo envolvimento de seus governos na defesa do continente não responde simplesmente a um capricho do líder no poder, mas não a uma reconstituição da estrutura militar. A sociedade norte-americana continuará pressionando seu governo para obter benefícios legítimos em termos dos resultados dos acordos comerciais. Será necessário, portanto, chegar a um acordo mutuamente benéfico.

Por fim, a América Latina terá que fazer um esforço para apresentar uma frente mínima comum se quiser obter novas vantagens, não baseadas em decisões arbitrárias de origem temporária. Ao lidar com os Estados Unidos, seja Biden ou Trump, a divisão será sempre prejudicial, especialmente para os interesses dos cidadãos latino-americanos.

*Tradução do espanhol por Maria Isabel Santos Lima

Foto de JSmith Photo en Foter.com / CC BY-ND

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