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Como o futebol molda a política na América Latina?

Na América Latina, o futebol não é apenas jogado: ele é vivido e vira política. Une nações, desperta paixões e também serve aos interesses do poder.

O futebol representa um dos principais fenômenos de massa na América Latina, mas sua importância vai além do gramado. Desde suas origens no século XIX, o esporte tem refletido as estruturas políticas, econômicas e sociais da região.

O esporte tornou-se um espaço onde se projetam identidades, disputas de poder e tensões geopolíticas. Mas, acima de tudo, sua evolução evidencia as divisões geográficas entre a América do Sul e os países da América do Norte, América Central e Caribe.

Estrutura do futebol latino-americano

Essa heterogeneidade do futebol latino-americano se refletiu em sua organização institucional. O futebol na América Latina está estruturado em torno de duas entidades: a Conmebol e a Concacaf. Essa divisão não é meramente administrativa, mas revela duas trajetórias políticas distintas. A Conmebol, na América do Sul, tem sido definida pelos laços linguísticos e culturais dos países sul-americanos e pela influência do Reino Unido. Por outro lado, a Concacaf agrupa uma região mais diversificada, que inclui países não latino-americanos, e tem sido marcada pela influência dos Estados Unidos e pela competição do futebol com o beisebol.

O desenvolvimento do futebol por meio das comunidades britânicas nos países sul-americanos explica, em certa medida, o desempenho desigual que as seleções da Conmebol e da Concacaf têm apresentado em campo. Apesar de suas diferenças, ambas as confederações têm se caracterizado por seus intercâmbios esportivos. A participação das seleções da Concacaf na Copa América e das equipes mexicanas na Copa Libertadores, bem como a realização da Copa Interamericana, ilustram o alto grau de cooperação existente entre elas.

Além do âmbito institucional, o futebol é um instrumento central para a construção de identidades políticas. Na América Latina, essa dinâmica se intensificou no início do século XX. O processo de modernização e desenvolvimento econômico dos Estados latino-americanos foi acompanhado por um processo de construção nacional. Como resultado, as elites locais se apropriaram dos esportes modernos importados pelas comunidades britânicas.

Construtor de identidade

Em países como a Argentina ou o Uruguai, o futebol contribuiu para a criação de narrativas nacionais próprias. Surgiram clubes de identidade crioula em contraposição às primeiras equipes de origem britânica. Estilos diferenciados se consolidaram, como “la Nuestra” ou a “garra charrúa”. Ao mesmo tempo, o futebol também potenciou as identidades regionais em nível interno. No caso argentino, ilustrou as tensões territoriais entre Buenos Aires — o principal porto da região — e o interior, entre a capital e a província. Da mesma forma, em países mais extensos e descentralizados, como o Brasil, o futebol revelou as rivalidades entre os diferentes centros de poder, como Rio de Janeiro e São Paulo.

A popularização do futebol transformou sua dimensão social. Com sua profissionalização, ele deixou de ser uma prática elitista para se tornar um fenômeno de massas, impulsionado pela urbanização, pela expansão da ferrovia e pelos meios de comunicação. Durante esse período, surgiram clubes ligados a bairros, trabalhadores e outras comunidades migrantes, o que consolidou uma cultura futebolística popular.

No entanto, essa difusão gerou tensões ideológicas, já que os grupos de esquerda o perceberam inicialmente como um mecanismo de controle social. Em lugares como o Brasil, o futebol adquiriu um papel ainda mais complexo ao se misturar com a questão racial. De fato, tornou-se um espaço de ascensão social para os afrodescendentes, como Pelé ou Garrincha, cujo sucesso simbolizou a concretização do que foi denominado a “democracia racial” brasileira.

Apoio político

A popularização do futebol entre as massas favoreceu sua irrupção na arena política. Os primeiros governos de cunho populista, como o de Getúlio Vargas no Brasil ou o de Juan Domingo Perón na Argentina, utilizaram o esporte como ferramenta de coesão nacional e de propaganda. A construção de estádios, o impulso aos clubes e às seleções nacionais e o desenvolvimento das competições passariam a fazer parte de uma política de Estado em grande escala.

Essa estratégia foi posteriormente replicada pelas ditaduras militares latino-americanas como instrumento de legitimação internacional. O caso mais emblemático foi a Copa do Mundo de 1978 na Argentina, onde a seleção albiceleste conquistou seu primeiro título mundial. Nessa linha, figuras do mundo dos negócios aproveitaram mais tarde o crescente negócio do futebol para lançar suas carreiras políticas por meio da compra de clubes.

Apesar disso, o futebol também funcionou como um espaço de resistência a esses regimes autoritários. O exemplo da Democracia Corinthiana no Brasil demonstrou que o esporte podia se transformar em uma plataforma de participação política e mobilização democrática. Paralelamente, durante os anos 80 e 90, o futebol latino-americano testemunhou inúmeros conflitos, associados à violência do narcotráfico e à crescente ascensão das torcidas organizadas.

Uma perspectiva geopolítica

Nas últimas décadas, a globalização transformou a América Latina em uma região exportadora de talentos do futebol. A liberalização do mercado europeu após a Lei Bosman de 1995, aliada ao crescimento exponencial das receitas provenientes de direitos de transmissão e publicidade, facilitou a migração em massa de jogadores latino-americanos para clubes europeus. Essa tendência consolidou uma relação desigual entre a Europa e a América Latina. Hoje, Brasil e Argentina lideram a exportação de jogadores de futebol, reproduzindo dinâmicas econômicas semelhantes às de seus modelos de exportação de matérias-primas.

Com vistas à Copa do Mundo de 2026, todos esses fatores mostram que o futebol constitui um cenário ideal para compreender a geopolítica da América Latina.

Tradução automática revisada por Isabel Lima

Autor

Analista do El Orden Mundial. Escritor e colaborador dos podcasts Real Politik FC e No es el fin del mundo (Não é o Fim do Mundo), vencedor do Prêmio Ondas de Melhor Podcast de Conversação em 2025.

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