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A vitória contra o narcotráfico e o risco de um Executivo sem limites

O apoio social à ofensiva de segurança abre uma janela para redefinir — e, eventualmente, desequilibrar — os limites do poder no México.

Nos dias posteriores à execução de Nemesio Oseguera Cervantes, “El Mencho”, o debate público se concentrou, de maneira quase automática, nas consequências imediatas da operação. A atenção se concentrou em dois planos: por um lado, a reestruturação interna do Cartel Jalisco Nova Geração (CJNG) e, por outro, o impacto desse golpe na relação do governo mexicano com os Estados Unidos. No entanto, além do contexto atual, a questão de fundo é outra: essa vitória tática pode se tornar uma oportunidade para a concentração de poder no Executivo mexicano sob o argumento da segurança nacional?

O apoio social imediato à operação em Tapalpa, Jalisco, é um dado relevante. Segundo uma pesquisa da GobernArte S.C., 82,4% dos entrevistados “aprovavam totalmente” a intervenção militar. Essa legitimidade é compreensível em um país exausto pela violência. Mas é também o capital político que permite aprofundar decisões excepcionais. Quando a população percebe resultados concretos, como a captura do “criminoso mais procurado”, amplia-se a margem para que o Executivo fortaleça o aparato coercitivo do Estado sem enfrentar grandes resistências.

A experiência comparativa mostra que a centralização do poder raramente se apresenta como uma ruptura abrupta. Ela se constrói gradualmente, sob a narrativa da necessidade. Maior presença militar em tarefas de segurança pública, maior discricionariedade orçamentária para as Forças Armadas, ampliação das atribuições de inteligência e coordenação direta com atores externos sem supervisão parlamentar robusta. Tudo isso pode ser justificado como indispensável para enfrentar uma ameaça que, longe de desaparecer, poderia se intensificar.

Nesse sentido, a captura de Oseguera não encerra o ciclo de violência; provavelmente o reconfigura. A longa experiência latino-americana ensina que, quando o líder de um cartel cai, as diferentes lideranças regionais enfrentam um dilema: esperar a emergência de um novo comando que preserve a unidade ou se tornar independentes para disputar territórios e mercados criminosos. Esse processo de fragmentação costuma ser mais violento do que a etapa de hegemonia.

Um precedente recente confirma isso. A ruptura do Cartel de Sinaloa, após o sequestro e a transferência para os Estados Unidos de Ismael “El Mayo” Zambada, resultou em duas facções, “Los Mayos” e “Los Chapitos”, que desde setembro de 2024 disputam o controle da organização. A divisão não só fragmentou a cúpula, mas arrastou lideranças regionais e multiplicou os confrontos. Nada indica que o Cartel Jalisco Nova Geração (CJNG) esteja isento de um processo similar.

Se a fragmentação do CJNG resultar em uma intensificação da violência nos pelo menos 20 estados onde surgiram focos de tensão após a queda de seu líder, o argumento para reforçar a militarização ganhará força. Bloqueios de estradas por narcotraficantes, ataques contra instituições públicas e empresas privadas, e um número crescente de militares, guardas nacionais e policiais mortos em combate alimentam a percepção de uma guerra interna. Nesse clima, a exigência de ordem tende a prevalecer sobre a defesa dos contrapesos.

A esse quadro soma-se a dimensão internacional. A operação que culminou na execução de Oseguera evidenciou uma estreita colaboração com os Estados Unidos. O esquema descrito por diversos analistas é claro: os serviços de inteligência estadunidenses realizam trabalhos de investigação e localização de “alvos narcoterroristas”, processam as informações e as entregam ao sistema de segurança nacional mexicano, que executa as operações. Embora os agentes estadunidenses não apareçam publicamente, o acompanhamento estratégico é próximo.

Essa cooperação marcou um ponto de ruptura em relação à política de “abraços, não tiros” do sexênio anterior, associada a uma estratégia de contenção que, segundo seus críticos, paralisou a captura de grandes chefes do crime. O novo enfoque aposta em golpes diretos e coordenação bilateral. No entanto, o fortalecimento da segurança hemisférica pode ter um efeito colateral: consolidar um modelo altamente centralizado, no qual as decisões estratégicas se concentram no Executivo e nas Forças Armadas, com escasso debate público.

A legitimidade da colaboração com Washington — sobretudo se produzir resultados visíveis — reduz os incentivos para discutir seus limites. Que mecanismos de supervisão existem? Qual é o papel do Congresso na definição da estratégia? Como garantir que a ampliação das atribuições militares não substitua definitivamente as instituições civis? Essas questões tendem a ser relegadas quando a prioridade é neutralizar ameaças imediatas.

O risco não é a cooperação em si, mas sua institucionalização sem contrapesos. Em um contexto em que várias instituições da transição democrática foram enfraquecidas ou capturadas, a expansão do poder militar pode se tornar estrutural. Mesmo que houvesse alternância partidária, a inércia de um aparato de segurança fortalecido e com amplo apoio social poderia perdurar. Parafraseando Fouché, os governos passam, os militares ficam.

Do ponto de vista democrático, o cenário mais provável não é o cancelamento das eleições, mas a transformação do ecossistema político. As eleições poderiam ser mantidas, mas em um ambiente em que decisões-chave, como o orçamento, a inteligência ou a segurança interna, estejam cada vez mais nas mãos dos militares. A concentração de poder nem sempre assume a forma de uma ruptura institucional; às vezes se manifesta como uma reconfiguração silenciosa de prioridades e equilíbrios.

Diante desse panorama, o campo democrático enfrenta um duplo desafio. Por um lado, reconhecer a urgência de combater as antigas e novas organizações criminosas. Por outro, evitar que essa urgência se transforme em uma justificativa permanente para ampliar sem limites o poder do Executivo. A revitalização do debate público em torno de reformas institucionais e contrapesos é um sinal de que existem reservas cívicas, mas sua eficácia dependerá de sua capacidade de articular uma proposta que não seja percebida como indiferente à insegurança. 

Em suma, a execução de “El Mencho” pode ser interpretada como um sucesso operacional e, ao mesmo tempo, como o ponto de partida para uma redefinição do equilíbrio de poder no México. Se a violência se intensificar devido à fragmentação do CJNG e a cooperação bilateral se aprofundar com ampla legitimidade social, o Executivo terá incentivos e margem para concentrar mais atribuições. A história latino-americana nos mostra que as emergências tendem a expandir o poder do Estado para além da conjuntura que as originou. Evitar que a exceção se torne a regra é, hoje, a tarefa central da democracia mexicana.

Tradução automática revisada por Isabel Lima

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Professor da Universidade Autônoma de Sinaloa. Doutor em Ciência Política e Sociologia pela Universidade Complutense de Madri. Membro do Sistema Nacional de Pesquisadores do México.

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