A recente publicação da nova estratégia antidrogas dos Estados Unidos e a atualização da Estratégia e Plano de Ação da União Europeia contra o Narcotráfico representam muito mais do que uma simples atualização de políticas. Sinalizam o retorno de uma mentalidade antiga que muitos acreditavam estar extinta: a ideia de que as drogas são fundamentalmente um problema de guerra que deve ser abordado principalmente mediante a repressão, interdição, vigilância e o fortalecimento das medidas de segurança.
A linguagem difere em ambos os lados do Atlântico. Washington fala abertamente de “guerra”, “ataque químico” e “caça aos cartéis”, enquanto volta a vincular a política antidrogas à lógica antiterrorista, classificando os cartéis como “Organizações Terroristas Estrangeiras” e o fentanil como uma “arma de destruição em massa”. A Comissão Europeia usa termos mais amenos como “segurança”, “resiliência” e “proteção das cadeias de suprimentos”, mas também está expandindo rapidamente os sistemas de vigilância, as ferramentas de policiamento preditivo, os mecanismos de intercâmbio de informações e as capacidades de monitoramento digital. Apesar dos distintos enfoques, ambas as estratégias apontam na mesma direção: a política de drogas é novamente enquadrada como uma questão de segurança centrada no controle de fronteiras, sistemas de inteligência e pressão sobre países terceiros.
Essa mudança ocorre em um momento particularmente delicado para a América Latina e o Caribe. O novo Relatório do PNUD sobre Democracia e Desenvolvimento na América Latina e no Caribe 2026 alerta que as democracias da região enfrentam crescente pressão do crime organizado, da insegurança, da desigualdade, da polarização política e da fragilidade institucional. O relatório identifica corretamente que o crime organizado não é mais simplesmente um problema criminal; em muitos países, tornou-se um problema de governança capaz de influenciar políticas, controlar instituições, distorcer processos democráticos e corroer a confiança pública.
No entanto, há uma contradição no centro desse debate. Os governos ocidentais reconhecem cada vez mais o crime organizado como uma grave ameaça à democracia, ao mesmo tempo que reforçam muitas das políticas proibicionistas que contribuíram para a ascensão das economias criminosas. Durante décadas, a proibição transformou certos mercados em negócios ilegais extraordinariamente lucrativos. O crime organizado expandiu-se não só devido à corrupção ou à fragilidade dos Estados, mas também porque os sistemas globais de controle de drogas criaram vastas economias subterrâneas que operam à margem da lei. No entanto, esse debate permanece praticamente ausente das novas estratégias dos Estados Unidos e da União Europeia.
Em vez disso, ambos os documentos apresentam o crime organizado quase como uma ameaça externa que ataca as sociedades democráticas de fora. Os Estados Unidos culpam diretamente países estrangeiros por não impedirem o “envenenamento” de estadunidenses, enquanto a América Latina aparece, mais uma vez, principalmente como um território associado ao tráfico, à produção e à instabilidade. A Europa usa uma linguagem menos agressiva, mas replica muitas das mesmas dinâmicas, orientando cada vez mais a cooperação com a América Latina, a África e a Ásia para a interdição, o compartilhamento de informações e o controle logístico.
As conotações coloniais são difíceis de ignorar. A cooperação internacional corre o risco de se concentrar menos no desenvolvimento compartilhado e mais na proteção dos interesses de segurança do Norte Global, terceirizando a aplicação da lei, muitas vezes sem levar em consideração os custos sociais, as consequências democráticas ou os impactos sobre os direitos humanos nos países mais afetados. Durante décadas, algumas das comunidades mais pobres da América Latina pagaram o preço mais alto pela guerra global contra as drogas: violência, militarização, corrupção, prisões superlotadas, territórios fragmentados e democracias enfraquecidas. No entanto, grande parte da resposta do Norte Global continua a se concentrar principalmente na contenção, em vez de questionar se a própria proibição pode ser parte do problema.
Uma das ideias mais importantes do novo relatório do PNUD é que muitas democracias na região estão presas em “equilíbrios de baixo desempenho”, situações em que a violência, a desigualdade, as instituições frágeis e a fraca presença do Estado se reforçam constantemente. As economias criminosas prosperam justamente onde os Estados falham em fornecer segurança, oportunidades, infraestrutura e legitimidade.
Isso levanta uma questão incômoda, porém inevitável: se o crime organizado deriva grande parte de seu poder do controle de mercados ilícitos, é realmente possível enfraquecer essas organizações a longo prazo sem discutir formas alternativas de regulamentação?
Um dos aspectos mais corajosos de outro relatório recente do PNUD, Dimensões do Desenvolvimento da Política de Drogas (2025), foi justamente sua disposição de ir além dos limites tradicionais dos debates internacionais sobre políticas de drogas e reconhecer abertamente que as abordagens punitivas muitas vezes se mostraram ineficazes ou mesmo contraproducentes para o desenvolvimento, a governança, a saúde pública, os direitos humanos e a sustentabilidade ambiental. O relatório não se limitou a criticar a proibição. Ele também explorou a ideia de uma “transição justa” de economias ilícitas para economias regulamentadas, argumentando que as comunidades historicamente dependentes dos mercados ilegais de drogas não devem ser simplesmente abandonadas durante os processos de reforma. Sua ênfase em meios de subsistência sustentáveis, justiça social, regulamentação baseada na equidade, redução de danos, direitos indígenas e integração de produtores marginalizados em mercados legais representou uma das posições mais progressistas já adotadas no âmbito do sistema das Nações Unidas sobre políticas de drogas.
Precisamente por isso, é surpreendente que o relatório do PNUD de 2026 sobre democracia e desenvolvimento ignore essa dimensão transformadora. A possibilidade de que o fortalecimento da democracia na América Latina também exija transições justas entre economias ilícitas e lícitas — transições capazes de reduzir a violência, enfraquecer o crime organizado, expandir direitos e criar novas formas de desenvolvimento inclusivo — merecia um lugar muito mais central no debate.
Enquanto isso, o ciclo se repete: mais vigilância, mais interceptação, mais sistemas de inteligência e mais pressão sobre os países produtores e de trânsito. No entanto, os mercados ilegais continuam a se adaptar com uma velocidade assombrosa. As rotas mudam, novos atores surgem, a produção se desloca para outros locais e as drogas sintéticas evoluem mais rápido do que os sistemas de controle conseguem reagir. Ironicamente, tanto a estratégia dos EUA quanto a da UE reconhecem abertamente essa adaptabilidade, ao mesmo tempo que insistem na mesma abordagem focada na repressão.
A estratégia dos EUA inclui um acréscimo peculiar sobre a “importância da fé”, argumentando que “adicionar Deus à equação confere um poder especial” ao combate ao vício. Após décadas de fracasso na erradicação das drogas por meio de punição e militarização, o discurso começa a se voltar para narrativas de redenção moral, substituindo um vício por outro e trocando abordagens baseadas em evidências e direitos humanos por visões moralizantes de salvação divina. Essa é uma narrativa que uma crescente (e politicamente influente) comunidade religiosa conservadora na região estaria perigosamente disposta a adotar e contribuir para a expansão, em um cenário de tratamento de dependência já dominado por organizações religiosas.
Os riscos democráticos dessa mudança em direção à segurança estão se tornando cada vez mais evidentes. O verdadeiro desafio, portanto, não reside simplesmente em como conter as organizações criminosas, mas em como construir democracias capazes de governar economias complexas e sociedades profundamente desiguais sem ficarem presas entre a violência criminal, as tentações autoritárias e a inércia proibicionista.
A política de drogas não pode mais ser tratada simplesmente como uma questão técnica ou de segurança pública. Ela se tornou uma questão central de democracia e desenvolvimento sustentável. Inovação e reforma social são essenciais para superar a falsa dicotomia entre proibição e caos e para construir futuros mais humanos, democráticos e eficazes.
Tradução automática revisada por Isabel Lima










