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Crise, resiliência ou inércia do regionalismo latino-americano?

Longe de desaparecer, os mecanismos de integração da região buscam se adaptar à fragmentação política por meio de fórmulas mais flexíveis que preservem espaços mínimos de cooperação e governança.

O estado atual do regionalismo latino-americano já não pode ser adequadamente interpretado em termos de “crise”. Esse conceito pressupõe ao menos dois elementos: um caráter conjuntural e uma situação de urgência. Nenhuma dessas condições parece descrever o atual estado do regionalismo na América Latina. O que se observa não é mais um episódio crítico excepcional ou transitório, mas uma condição mais prolongada de baixa capacidade de atuação diante de crises internas e fragmentação política.

As formas limitadas e adaptativas de regionalismo que conseguiram se consolidar na região não desconsideram os valiosos, embora tímidos, esforços para dar continuidade à cooperação regional em áreas específicas, como os impulsionados pelo Consenso de Brasília. No entanto, acreditamos que a discussão atual exige deslocar o eixo analítico a partir da ideia de “crise” para outros dilemas, como o dilema entre resiliência e inércia. Essas duas noções podem ser confundidas, mas referem-se a fenômenos distintos. Inércia implica mera persistência passiva, continuidade sem transformação significativa e sobrevivência institucional com pouco potencial para produzir resultados substanciais. A resiliência, por outro lado, implica a capacidade de adaptação mediante mecanismos de ajuste institucional diante de contextos adversos. É mais do que mera sobrevivência.

O que emerge é um regionalismo essencialmente adaptativo. Talvez o termo não seja grandioso, mas captura uma característica central do momento atual: organizações que buscam preservar níveis mínimos de coordenação política e operacionalidade institucional diante de tendências crescentes de fragmentação ideológica e unilateralismo, moldadas por alinhamentos geopolíticos externos.

O caso do Sistema de Integração Centro-Americana (SICA) é ilustrativo. A reforma do “Regulamento Relativo à Integração, Quórum e Tomada de Decisões dos Órgãos e Instâncias Regionais do SICA”, aprovada em abril de 2026 sem a participação da Nicarágua, foi apresentada como uma medida destinada a romper a paralisia institucional causada pelo veto permanente de Manágua à nomeação do secretário-geral. O cargo permanece vago desde 2023 devido à rejeição de vários países aos candidatos indicados pela Nicarágua, estreitamente ligados aos regimes de Daniel Ortega e Rosario Murillo. A Nicarágua retirou-se temporariamente da SICA em 2024 pelo conflito em torno da secretaria-geral. Contudo, a SICA continua funcionando mediante mecanismos de cooperação técnica em áreas como saúde, agricultura, digitalização e gestão de riscos, demonstrando que, mesmo em contextos de forte fragmentação política, os espaços funcionais para a cooperação regional conseguem manter-se relativamente operacionais.

A reforma, que flexibiliza as regras de quórum e votação, constitui uma importante inovação numa região historicamente ligada ao consenso e à unanimidade. No entanto, reflete um paradoxo: pode ser vista como um sinal de resiliência institucional ao evitar bloqueios permanentes e limitar vetos paralisantes, embora não responda a uma lógica de aprofundamento da integração supranacional, mas sim a uma adaptação face à incapacidade dos mecanismos tradicionais de lidar com conflitos políticos persistentes.

A situação andina revela outra dimensão crítica do problema: mesmo sistemas considerados relativamente institucionalizados demonstram dificuldades em disciplinar o comportamento estatal. A Comunidade Andina (CAN) ordenou recentemente ao Equador e à Colômbia que desmantelassem as medidas tarifárias e restrições comerciais recíprocas implementadas desde dezembro de 2025. No entanto, ambos os governos apresentaram recursos contra as resoluções andinas, prolongando assim a disputa. Atualmente, a Secretaria-Geral da CAN está analisando os recursos decorrentes do conflito sobre as tarifas e as limitações ao comércio bilateral adotadas pelos dois países.

Embora a CAN tenha conseguido intervir formalmente para fazer cumprir a normativa andina, o conflito testou os limites dessa institucionalidade: o Equador e a Colômbia priorizaram agendas nacionais e disputas pessoais que refletem os alinhamentos da região. A decisão equatoriana e colombiana de, primeiro, obstruir o comércio bilateral com medidas restritivas e, em seguida, recorrer das resoluções andinas, demonstra as dificuldades que os órgãos regionais enfrentam para garantir a implementação efetiva de suas decisões, mesmo em questões de livre comércio intrarregional.

Além disso, o presidente colombiano Gustavo Petro chegou a sugerir a possibilidade de abandonar a CAN e reorientar as prioridades estratégicas da Colômbia para outros espaços regionais, particularmente o MERCOSUL. Embora a declaração tenha um claro componente político decorrente de eventos atuais, ela revela que, mesmo dentro de uma das estruturas regionais mais historicamente institucionalizadas, o exercício da autoridade coletiva depende da existência e da articulação de interesses comuns e é dificultado por divisões ideológicas.

O regionalismo latino-americano parece operar hoje em um contexto menos orientado para grandes projetos de integração profunda e mais focado em fortalecer as capacidades de gestão política, a resolução de conflitos e a preservação de espaços para a coordenação regional. Nesse contexto, a reforma da SICA pode ser interpretada como um sinal de adaptação institucional diante de períodos prolongados de impasse. O relaxamento das regras permitiria romper a paralisia que ameaça o funcionamento da organização, abrindo caminho para a eleição de um novo secretário-geral.

De forma similar, a intervenção da CAN frente ao conflito tarifário entre Equador e Colômbia demonstra que os mecanismos regionais ainda mantêm alguma capacidade de mediação em disputas interestatais. Contudo, as dificuldades em obter o cumprimento das resoluções andinas também mostram que essa capacidade permanece limitada e altamente dependente da vontade política dos governos envolvidos.

Os laços estreitos entre governos como os de Bukele, Noboa, Laura Fernández e Mulino, e o segundo governo Trump, junto às tensões cada vez mais visíveis com líderes de oposição — como o conflito entre Noboa e Petro — sugerem que essas preferências ideológicas também se projetam no regionalismo latino-americano. Mais do que uma simples diferença de orientações políticas, isso tende a aprofundar a fragmentação regional e favorecer formas de cooperação cada vez mais moldadas por alinhamentos geopolíticos externos.

Em última análise, tanto a reforma do SICA quanto as ações da CAN sugerem que o regionalismo latino-americano contemporâneo não pode ser entendidas em termos de crise. Embora a região pareça ter se afastado — pelo menos por ora — de metas ambiciosas de integração, o regionalismo continua demonstrando capacidades de adaptação e resiliência. Esses esquemas parecem se reconfigurar para modalidades de cooperação mais flexíveis e pragmáticas, orientadas a preservar a governança regional em contextos políticos fragmentados e polarizados. A questão central, portanto, não é se essas instituições sobreviverão, mas se essa resiliência adaptativa poderá eventualmente se tornar uma base para a reconstrução de formas mais robustas e eficazes de governança regional.

Tradução automática revisada por Isabel Lima

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Professora e pesquisadora da Faculdade de Ciência Política e Relações Internacionais da Universidade Nacional de Rosário (Argentina). Diretora do Grupo de Estudos sobre a União Europeia da UNR.

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