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A geopolítica do futuro, além da Groenlândia e das Malvinas

Movimentos estratégicos recentes, muito rápidos, sugerem que algo profundo pode estar mudando na organização estratégica do Ocidente.

A crise no Estreito de Ormuz e a retórica recorrente sobre o Irã, novamente apresentada por Donald Trump em seu discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU), podem acabar ofuscando um interessante jogo geopolítico que está se desenrolando neste exato momento no Atlântico Norte.

Na semana passada, Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, propôs que o Canadá se tornasse o primeiro “Estado associado” da União Europeia (UE) e que fosse criado um Conselho de Segurança Europeu, do qual também fariam parte o Reino Unido, a Noruega e a Ucrânia.

Os EUA anunciaram, em seguida, um acordo com a Dinamarca que lhes garantiria acesso permanente a recursos e infraestruturas críticas, além de presença militar — também permanente — na Groenlândia. O acordo foi assinado dias depois em Nova York, aproveitando, justamente, a reunião da AGNU.

Algo significativo parece estar ocorrendo na região ártica. O Ocidente parece estar se preparando para o que considera uma “contenção” prolongada da Rússia e da China, ao estilo da Guerra Fria, e, em consonância com isso, parece estar situando o ponto de referência geográfico dessa “Linha de Frente Estratégica” no Polo Norte.

Na atuação ocidental, não há uma ruptura real entre a UE, o Canadá e os EUA. Tudo indica, de fato, que Washington seguirá mantendo o controle: os gastos seriam redistribuídos, mas o vínculo e o comando permaneceriam intactos.

Vale lembrar que a Dinamarca — à qual está vinculada a Groenlândia — é membro da UE e da OTAN; que todos os países do “Conselho de Segurança Europeu”, com exceção da Ucrânia — que entraria pela porta dos fundos —, são membros da OTAN; e que o Canadá e o Reino Unido mantêm laços com os EUA que vão além da OTAN.

O interessante da recomposição geopolítica que vem sendo descrita é que, além de repensar a centralidade geopolítica do Heartland — conceito formulado pelo geógrafo britânico Halford Mackinder no início do século XX —, ela parece responder a uma lógica tática e, ao mesmo tempo, econômica.

A principal intenção dos EUA parece ser reduzir seus gastos correntes com defesa, cada vez mais difíceis de sustentar, concentrando seus esforços na exploração e no processamento de minerais estratégicos e no desenvolvimento e controle de infraestruturas críticas. É nesse contexto que seu interesse pela Groenlândia ganha sentido geopolítico.

Uma leitura que atualmente parece ganhar espaço em think tanks estadunidenses dedicados à política externa, como CSIS, RAND Corporation, Atlantic Council ou Hudson Institute, é que não há outra maneira de competir com a China e com a Rússia.

O que parece claro é que, para a Europa e para o Canadá, caso uma reestruturação como a descrita se concretizasse, os custos financeiros aumentariam, suas economias passariam por uma reestruturação completa, transitando do Estado de Welfare ao Warfare State, e o resultado final para ambas as regiões não significaria necessariamente nem uma maior influência global nem uma “autonomia estratégica” real.

O Sul Global em geral e a América do Sul em particular, apesar de estarem distantes da área em reestruturação, não deveriam ignorar uma situação que pode afetar enormemente os equilíbrios internacionais. Na verdade, a governança global.

O importante a compreender aqui é que podemos não estar falando, apenas, de uma oposição conjuntural em torno do Polo Norte, mas de uma aposta estratégica concebida para reorganizar, a partir dos extremos geográficos do planeta, a segurança, os fluxos, o acesso aos recursos e às infraestruturas críticas globais.

Pelos pólos — onde se acumulam recursos estratégicos inestimáveis e praticamente inexplorados — chega-se mais rapidamente a quase qualquer lugar, e a América do Sul é a região do mundo mais próxima da Antártida. A única, na verdade, por meio da qual se pode acessar o Polo Sul, mesmo no inverno.

Talvez não por acaso, enquanto nos últimos dias aconteciam eventos no Atlântico Norte e em Nova York se realizava a Assembleia Geral da ONU, no Atlântico Sul Javier Milei — presidente da Argentina e aliado de Trump — retomou a reivindicação da soberania sobre as Ilhas Malvinas, a mesma que praticamente rejeitou em julho, quando os jogadores da seleção argentina a ergueram como bandeira durante a Copa do Mundo.

Milei não se limitou a retórica: anunciou sanções contra as petrolíferas envolvidas na concessão que está na origem da última tensão com Londres e, ao mesmo tempo, propôs retomar a construção de uma base naval integrada em Ushuaia, projetada pelo governo de seu antecessor no cargo, Alberto Fernández

O ponto-chave da questão é que os especialistas no assunto sabem que falar das Malvinas e de Ushuaia é falar do acesso à Antártida e do controle dos fluxos entre o Atlântico Sul e o Pacífico Sul. Ambas as prioridades, é claro, são bem ao estilo de Trump. Será que se aproxima, no Sul, uma reorganização geopolítica semelhante à que parece estar se delineando no Hemisfério Norte? O tempo dirá…

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Professor do Instituto Latino-Americano de Economia, Sociedade e Política da Univ. Federal de Integração Latinoamericana - UNILA (Brasil). Doutor em Sociologia pela École des Hautes Études en Sciences Sociales - EHESS (Paris).

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