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Depois da Copa do Mundo: o campo também anuncia uma nova ordem global

A Copa do Mundo refletiu um mundo mais multipolar e deixou uma lição para a América Latina: a autonomia e o desenvolvimento exigem instituições sólidas, investimento sustentável e uma estratégia própria.

Quando uma Copa do Mundo termina, a bola para de rolar, mas a política segue seu próprio jogo. O torneio não só consagra um campeão: também coloca em cena hierarquias, aspirações e contradições de seu tempo. Em um contexto de competição entre potências, fragmentação da globalização e busca por autonomia por parte do Sul Global, o futebol oferece uma imagem particularmente nítida da recomposição geopolítica e econômica do mundo.

Ficou claro que o poder já não se explica só a partir dos centros tradicionais. A Europa segue dominando a indústria do futebol, mas sua hegemonia esportiva e simbólica já não é inquestionável. Seleções que até então eram consideradas periféricas deixaram de ser meros participantes ocasionais. Elas competem com maior organização e obrigam as potências históricas a reconhecer que o mapa do futebol é hoje muito mais plural.

Essa emancipação de várias seleções nacionais é um dos fenômenos mais relevantes do torneio. Não se trata só de times que superam as expectativas, mas de países que começam a construir suas próprias narrativas e a rejeitar o papel secundário que, durante décadas, lhes foi atribuído pela economia e pela cultura globais.

Sua conexão com o público também não se explica só pelos resultados. Muitas dessas seleções cativaram porque projetaram uma imagem coletiva. Diante de um futebol organizado em torno de celebridades, surgiram times que transmitiam solidariedade, disciplina e senso de pertencimento. Essa dimensão coletiva gerou uma identificação que transcendeu fronteiras.

O sistema internacional passa por uma transição. A centralidade dos Estados Unidos e da Europa coexiste com a ascensão da Ásia, a consolidação de potências regionais e a busca por maior autonomia da África, da América Latina e de outras regiões historicamente subordinadas. A globalização não desaparece, mas muda de forma: as cadeias produtivas se reorganizam, os Estados recuperam ferramentas de política industrial e a disputa por recursos estratégicos, tecnologia e conhecimento modifica as alianças.

O futebol participa dessa transição. Os países que fortalecem seus projetos nacionais costumam combinar investimento público, formação esportiva, infraestrutura, profissionalização administrativa e cooperação com o setor privado. As seleções que competem de forma consistente não são fruto do acaso, mas de processos cumulativos, instituições estáveis e políticas sustentadas.

Essa constatação deveria fazer parte do debate público na América Latina. A região tem tendido a interpretar seus sucessos esportivos como expressões espontâneas de talento e seus fracassos como tragédias inevitáveis. Ambas as interpretações minimizam o peso das instituições. O talento individual é indispensável, mas insuficiente sem sistemas capazes de identificá-lo, protegê-lo e desenvolvê-lo.

Durante décadas, a América Latina esteve integrada à economia global do futebol como exportadora de jogadores. Clubes europeus compravam jovens promessas, apropriavam-se de grande parte do seu valor econômico e consolidavam um modelo no qual a região arcava com os custos de formação, enquanto outros mercados concentravam os lucros.

Romper essa dependência não significa fechar fronteiras ou impedir a circulação internacional de jogadores. Significa fortalecer as instituições locais, profissionalizar as ligas, proteger as divisões inferiores e desenvolver as nossas próprias capacidades. Autonomia não significa isolamento, mas sim participação a partir de uma posição menos subordinada.

A Copa do Mundo também mostrou que, em sociedades marcadas pela desigualdade e polarização, as seleções nacionais continuam a gerar espaços de reconhecimento mútuo. Contudo, essa capacidade não deve ser idealizada. O nacionalismo esportivo pode servir para mascarar conflitos sociais, promover a exclusão ou transformar o sucesso de uma equipe em propaganda política.

Pode também abrir um diálogo sobre comunidade, igualdade e pertencimento. Seleções nacionais que refletem a diversidade social de seus países desafiam concepções rígidas de identidade nacional. Jogadores de migrações recentes, comunidades marginalizadas ou territórios periféricos demonstram que uma nação é uma construção coletiva em constante transformação.

Essa questão é especialmente relevante para a América Latina, onde a identidade nacional muitas vezes se encontra dividida entre a celebração da diversidade e o reconhecimento da persistência de profundas desigualdades. O futebol torna essas contradições visíveis: jogadores indígenas, afrodescendentes, migrantes ou da classe trabalhadora podem ser celebrados enquanto suas comunidades continuam a enfrentar discriminação e falta de oportunidades. Uma perspectiva democrática não deve se limitar a celebrar essa diversidade simbólica, mas sim questionar quais instituições permitem que ela se transforme em direitos, representação e mobilidade social.

Há outra dimensão que merece atenção: o legado para os países-sede. Durante décadas, o debate sobre as Copas do Mundo oscilou entre o entusiasmo com os investimentos e o ceticismo em relação aos chamados “elefantes brancos”: estádios e infraestruturas cuja manutenção acaba se tornando um fardo para as finanças públicas. A experiência mostra que o sucesso de uma Copa do Mundo depende da capacidade de integrar esses investimentos a uma estratégia nacional de desenvolvimento.

A Copa do Mundo de 2026 oferece uma oportunidade diferente. Por ser organizada conjuntamente pelo México, pelos Estados Unidos e pelo Canadá, e por se basear principalmente na infraestrutura existente, o desafio consiste em aproveitar o torneio para fortalecer a integração regional, modernizar os sistemas de mobilidade, consolidar corredores logísticos, dinamizar o turismo e ampliar a cooperação cultural. A dimensão trinacional do evento levanta uma questão inédita: os grandes eventos esportivos podem se tornar plataformas de cooperação regional, em vez de vitrines de competição entre Estados?

Quando a infraestrutura atende a necessidades pré-existentes — transporte público, conectividade, renovação urbana, habitação e espaços públicos —, o torneio pode acelerar projetos que melhoram a qualidade de vida por décadas. Quando as decisões se subordinam exclusivamente ao espetáculo, o risco é herdar instalações superdimensionadas, dívidas e oportunidades perdidas.

Existe também um legado menos visível, mas igualmente importante: o cultural e institucional. Uma Copa do Mundo pode fortalecer as indústrias criativas, impulsionar o turismo, valorizar o patrimônio cultural e consolidar capacidades organizacionais que depois são aproveitadas em outros setores. Também pode estimular políticas de acesso ao esporte e transformar a infraestrutura em espaços de uso cotidiano para as comunidades.

A questão fundamental não é quanto custa organizar uma Copa do Mundo, mas sim qual modelo de desenvolvimento se busca financiar por meio dela. Um grande evento esportivo só justifica o investimento público se deixar capacidades permanentes: cidades mais habitáveis, instituições mais eficientes, economias locais fortalecidas e uma população com maior acesso a bens culturais e esportivos.

A Copa do Mundo também ofereceu uma plataforma de diplomacia e projeção internacional. Os países utilizam suas seleções para construir reputação, ampliar influência e se apresentar como sociedades modernas e competitivas. Essa diplomacia esportiva pode abrir oportunidades para nações com menor poder econômico ou militar, mas também pode encobrir autoritarismos, violações de direitos humanos ou profundas desigualdades.

A população latino-americana deveria aprender a observar ambas as dimensões. O futebol pode ser motivo de orgulho sem se tornar uma suspensão do pensamento crítico. É possível torcer por uma seleção e, ao mesmo tempo, questionar a falta de transparência de suas federações, a precariedade de seus trabalhadores ou o uso político de suas vitórias.

O que se segue após a Copa do Mundo é uma disputa pelo significado do torneio. Para alguns, terá sido apenas uma sucessão de partidas e comemorações. Para outros, uma evidência de que as antigas hierarquias podem ser desafiadas.

A principal lição para a América Latina é que a emancipação não surge de discursos grandiloquentes nem de gestos isolados. Ela requer instituições, investimento sustentável, planejamento estratégico e confiança nas próprias capacidades.

Em um mundo cada vez mais multipolar, a América Latina terá que decidir se permanece como espectadora da reorganização global ou se constrói uma agenda própria. Para isso, precisará de cooperação regional, Estados com capacidade de intervenção, mercados regulados e uma política externa menos dependente de alinhamentos automáticos. Também deverá compreender que a soberania contemporânea não se mede apenas em fronteiras, mas em conhecimento, infraestrutura, tecnologia e coesão social.

A Copa do Mundo deixa imagens e memórias compartilhadas, mas também questionamentos sobre o poder, a desigualdade e a possibilidade de construir projetos coletivos. As seleções que desafiaram a ordem tradicional demonstraram que as periferias podem deixar de ser periferias. O desafio para a América Latina consiste em transferir essa convicção do campo para a política, a economia e a vida democrática.

No fim das contas, o legado mais valioso de uma Copa do Mundo será a capacidade dos países de transformar um evento esportivo em uma oportunidade de desenvolvimento, integração e fortalecimento institucional. Essa é a partida que começa quando o campeonato já terminou.

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Coordenador Nacional de Transparência Eleitoral para México e América Central. Mestre em Governança, Marketing Político e Comunicação Estratégica pela Univ. Rei Juan Carlos (Espanha). Professor universitário.

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