A Copa do Mundo chegou ao fim e a Espanha foi uma campeã justa. No entanto, o verdadeiro legado do torneio vai além do resultado esportivo. Para além das táticas, dos jogadores e da emoção própria do futebol, o campeonato voltou a colocar em evidência problemas estruturais de governança e direitos humanos que afetam a FIFA e o futebol mundial.
Pela primeira vez, cada cidade-sede teve que apresentar um plano para garantir o respeito aos direitos humanos durante todas as etapas da Copa do Mundo. A iniciativa parecia demonstrar que a FIFA havia aprendido algumas lições após as críticas à Copa do Mundo do Catar, especialmente aquelas relacionadas aos trabalhadores migrantes. No entanto, esse avanço perdeu credibilidade quando a própria FIFA desmantelou sua unidade especializada em direitos humanos.
Esse contraste resume três deficiências persistentes na governança do futebol internacional: a crescente politização de decisões que deveriam ser neutras, a falta de transparência institucional e a subordinação dos valores esportivos aos interesses econômicos.
A neutralidade constitui um dos princípios fundamentais do esporte. As organizações esportivas defendem que os governos não devem interferir nas decisões esportivas e que os atletas devem competir livres de pressões políticas. Esse princípio, no entanto, perde legitimidade quando as próprias instituições permitem que considerações políticas influenciem suas ações.
A relação entre o presidente da FIFA, Gianni Infantino, e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ilustrou essas tensões. A entrega do chamado Prêmio da Paz da FIFA foi marcada por falta de transparência quanto aos critérios de elegibilidade, aos candidatos considerados e ao procedimento seguido. Pareceu responder mais a afinidades políticas do que a um processo institucional verificável. Da mesma forma, a decisão de suspender a suspensão de Folarin Balogun após um telefonema do presidente dos Estados Unidos alimentou dúvidas sobre a independência dos órgãos disciplinares da FIFA. A decisão foi tomada sem que o procedimento nem os fundamentos fossem divulgados.
A falta de transparência também se manifestou em outras áreas, desde a gestão de fundos até a tomada de decisões que afetam jogadores, comissões técnicas e torcedores. Em uma organização que administra o espetáculo esportivo mais assistido do planeta, a prestação de contas não é um luxo administrativo, mas uma condição indispensável para preservar a confiança.
As políticas migratórias dos Estados Unidos ofereceram outro exemplo. Torcedores da Costa do Marfim, do Haiti, do Irã e do Senegal não puderam assistir à Copa do Mundo devido às proibições do governo Trump, enquanto outros enfrentaram grandes obstáculos para obter vistos. Os jogadores iranianos não foram autorizados a permanecer nos Estados Unidos entre as partidas, e negaram a entrada ao árbitro somali Omar Abdulkadir Artan. A FIFA não realizou nenhuma ação pública significativa para questionar essas políticas. Seu silêncio contrastou com o compromisso que proclama em relação à inclusão e à igualdade.
As tensões entre neutralidade e liberdade de expressão também estiveram presentes. O Haiti teve que alterar sua camisa porque a FIFA considerou que ela continha um símbolo político ligado à Batalha de Vertières e à independência do país, embora nunca tenha explicado qual elemento infringia o regulamento. A entidade também eliminou das cerimônias oficiais as estrofes do hino argelino que faziam referência à luta anticolonial. Em ambos os casos, foram censuradas referências históricas ao domínio colonial francês, enquanto outros hinos com alusões bélicas permaneceram intactos. A aplicação desigual de regras semelhantes alimentou a percepção de arbitrariedade.
O mesmo problema se manifestou nas reações diante de manifestações políticas de jogadores, treinadores e torcedores. Após a vitória do Egito sobre a Austrália, Hossam Hassan ergueu uma bandeira palestina sem que fosse anunciada qualquer investigação. Em contrapartida, a FIFA proibiu a bandeira pré-revolucionária iraniana do Leão e do Sol, impediu a entrada de uma bandeira israelense em uma partida entre o Irã e a Nova Zelândia e iniciou uma investigação pela exibição de uma bandeira com a frase “As Malvinas são argentinas” (em referência à ocupação colonial inglesa) após o confronto entre a Argentina e a Inglaterra.
Na final, Donald Trump e Infantino foram vaiados por milhares de torcedores. A Fox, detentora dos direitos exclusivos de transmissão nos Estados Unidos, omitiu esses momentos. Os interesses econômicos prevaleceram sobre uma cobertura completa do que ocorreu, em um contexto de conhecida afinidade política entre a Fox e Trump.
O torneio também revelou a crescente influência dos interesses comerciais. Um de seus principais patrocinadores foi a petrolífera saudita Aramco, sem que a FIFA explicasse como esse patrocínio era compatível com sua estratégia de sustentabilidade e direitos humanos. Também não esclareceu que Yasir Al-Rumayyan, presidente da Aramco, também dirige o Fundo de Investimento Público da Arábia Saudita, apontado por sua suposta participação em graves violações dos direitos humanos, incluindo o assassinato do jornalista Jamal Khashoggi.
Os interesses econômicos também influenciaram as regras do torneio. A FIFA introduziu pausas obrigatórias para hidratação, o que ampliou os espaços para publicidade, sem explicar o procedimento seguido para adotá-las. A justificativa baseada na saúde dos jogadores é questionável, uma vez que várias partidas foram disputadas nos horários de maior calor para favorecer as transmissões globais.
A Copa do Mundo também serviu de palco para debates sobre racismo, discriminação, homofobia e liberdade de expressão. Os gritos homofóbicos dos torcedores mexicanos continuaram, sem que houvesse investigações ou intervenções da arbitragem, conforme exigem os regulamentos da FIFA. As discussões sobre a escassa presença de afrodescendentes na seleção argentina geraram um debate sobre o racismo, embora tenham deixado de abordar outras questões igualmente relevantes: por que praticamente não existem jogadores abertamente homossexuais nas seleções ou por que a diversidade religiosa e étnica continua sendo tão limitada em muitas seleções nacionais. Também não se discute se seleções supostamente mais diversificadas refletem sociedades igualitárias e livres de racismo.
A percepção de uma aplicação desigual das normas que protegem contra o racismo também surge ao comparar o tratamento recebido pelos latino-americanos Miguel Almirón, do Paraguai, e Piero Hincapié, do Equador, com o dispensado ao inglês Jude Bellingham e ao espanhol Marc Cucurella. Todos cobriram a boca, mas apenas Almirón e Hincapié foram expulsos. Não se trata de defender teorias da conspiração, mas de alertar que a falta de transparência e de padrões uniformes acaba alimentando a percepção de um tratamento diferenciado entre jogadores latino-americanos e europeus, o que não contribui para o objetivo de um futebol sem racismo.
Em suma, a Copa do Mundo foi uma grande festa que mobilizou milhões de pessoas, despertou admiração pelo talento e pelo esforço dos jogadores e das seleções e demonstrou que o poder econômico não garante o sucesso esportivo. Justamente por causa dessa capacidade do futebol de inspirar e unir, suas instituições devem se submeter aos mais altos padrões de transparência, independência e respeito aos direitos humanos.
Se a Copa do Mundo deixar um ensinamento duradouro, deve ser que a legitimidade da FIFA depende não apenas de organizar um espetáculo de sucesso, mas também de administrá-lo de acordo com princípios consistentes. Neutralidade, igualdade, transparência e prestação de contas não podem ser invocadas apenas quando for conveniente. Elas devem orientar todas as decisões da organização. Essa deve ser a verdadeira vitória que esta Copa do Mundo deixe para trás.










