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A herança diplomática de Marco Rubio

O discurso de Marco Rubio em Munique delineia uma diplomacia pragmática que busca reestruturar a aliança transatlântica para além do consenso liberal do pós-Guerra Fria.

O discurso de Marco Rubio na Conferência de Segurança de Munique revela, sobretudo, seu papel como diplomata profissional, mais do que como político ideologizado. Em sua intervenção, questionou a tese do “fim da história” de Francis Fukuyama, rejeitando a ideia de que a democracia liberal represente uma vitória definitiva ou absoluta. Ao mesmo tempo, destacou os laços históricos entre os Estados Unidos e a Europa Ocidental, uma relação que contribuiu para forjar uma das civilizações mais influentes do mundo contemporâneo. Essa visão remete claramente às abordagens de Samuel Huntington e seus postulados sobre a civilização.

Não é por acaso que Marco Rubio se tornou uma das principais figuras dos Estados Unidos em suas relações com aliados e adversários. O atual secretário de Estado encarna a figura do político profissional: nas palavras de Maurice Duverger, aqueles que vivem da política e para a política. Com uma longa trajetória como congressista, Rubio acumulou um amplo conhecimento do sistema internacional e dos processos de mudança que atravessam a ordem global.

Após a prisão de Nicolás Maduro, uma parte importante da opinião pública assumiu que o regime venezuelano cairia por seu próprio peso e que o país passaria por uma mudança radical. No entanto, segundo a visão do secretário de Estado, a estratégia de Washington não busca uma ruptura abrupta, mas um processo escalonado em três fases: primeiro, a estabilização do país mediante negociações com setores do chavismo; segundo, uma etapa de recuperação econômica impulsionada pela abertura do setor petrolífero e pela entrada de grandes empresas internacionais; e, finalmente, uma transição política que culmine em eleições fundacionais capazes de abrir caminho para um novo governo.

O modelo de transição baseado em fatores econômicos remonta aos postulados formulados na década de 1960 por Seymour Martin Lipset, que estabeleceu uma relação entre desenvolvimento econômico e estabilidade democrática. Posteriormente, esse enfoque foi retomado e matizado por autores como Samuel P. Huntington e Barrington Moore Jr. Nesse sentido, Marco Rubio parece interpretar as mudanças e continuidades dos regimes políticos a partir de uma lógica mais próxima da análise acadêmica e técnica do que da mera retórica ideológica. A força do Departamento de Estado reside precisamente na possibilidade de seu secretário dispor de certa margem de autonomia para agir com pragmatismo em cenários internacionais.

Em um mundo marcado por transformações aceleradas, Marco Rubio apelou em seu discurso ao fortalecimento das alianças, à ideia de civilização e à necessidade de uma reconfiguração geopolítica. Sua intervenção buscou persuadir a Europa a revisar o rumo político e avançar do liberalismo para o iliberalismo. Nesse contexto, Rubio insistiu na necessidade de reforçar a relação entre os Estados Unidos e a Europa.

Essa lógica pode lembrar o espírito de equilíbrio de poder que guiou figuras como Klemens von Metternich e Lord Castlereagh (Robert Stewart) durante o Congresso de Viena, quando as potências europeias tentaram redesenhar a ordem continental após as guerras napoleônicas, buscando conter tanto a influência francesa quanto a expansão russa.

No século XIX, Metternich e Castlereagh impulsionaram uma ordem profundamente conservadora. Seu objetivo era restaurar a estabilidade do continente por meio do fortalecimento das monarquias absolutas para conter os movimentos liberais e revolucionários surgidos após a Revolução Francesa. Ao mesmo tempo, promoveram um sistema de equilíbrio de poder que redistribuiu territórios e fortaleceu potências intermediárias com a intenção de evitar novas hegemonias que pudessem desestabilizar a Europa.

Certas semelhanças emergem no debate contemporâneo. Em pleno século XXI, setores da política externa estadunidense têm elogiado governos classificados como iliberais, como os da Hungria ou da Eslováquia. Essa postura reflete uma simpatia por eles e se soma aos ataques de Donald Trump ao liberalismo.

Diante desse cenário, Marco Rubio apela a uma revitalização da união transatlântica, embora não necessariamente mediada pelo consenso liberal que definiu as relações entre os Estados Unidos e a Europa após a Guerra Fria. Em vez disso, parece delinear-se um reajuste político no qual setores da direita europeia poderiam desempenhar um papel estabilizador dentro do continente.

Essa dinâmica também se reflete nas tensões recentes entre Washington e alguns governos europeus identificados com o liberalismo político, como os liderados por Friedrich Merz na Alemanha, Emmanuel Macron na França, Keir Starmer no Reino Unido ou Donald Tusk na Polônia. Em contrapartida, certos setores da política estadunidense têm exaltado líderes considerados iliberais, como Viktor Orbán na Hungria ou Robert Fico na Eslováquia, e até mesmo demonstrado admiração por Vladimir Putin.

Figuras como o presidente Donald Trump e o vice-presidente J.D. Vance têm tensionado as relações transatlânticas principalmente através do discurso político. Em contrapartida, Marco Rubio retomou uma diplomacia mais tradicional, que muitos observadores consideravam abandonada nos últimos anos. Seguindo essa lógica, os Estados Unidos não cederam terreno em seu papel como potência global; ao contrário, ajustaram sua estratégia, priorizando seus interesses nacionais e pressionando aliados históricos.

Tradução automática revisada por Isabel Lima

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Cientista político. Formado na Universidade Nacional Autônoma de México (UNAM). Diploma em Jornalismo pela Escola de Jornalismo Carlos Septién.

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