Um lobby político-religioso de penetração e conquista

Há várias décadas, a penetração dos cultos evangélicos na América Latina vem crescendo, lentamente em seus primórdios, mas ganhando velocidade com o passar dos anos. Os motivos são variados, entre eles o descrédito da Igreja Católica, que historicamente tem sido a religião predominante na região. Outro é a intencionalidade do establishment político-religioso estadunidense, que visualizou em sua forma particular de “evangelização” outra forma de dominação.

As políticas “evangelizadoras” a partir do entorno de Trump

Durante muito tempo, esses avanços tiveram um sucesso limitado, embora crescente, aproveitando as lacunas deixadas pela atitude retrógrada e intransigente de grande parte da hierarquia católica. Entretanto, nos últimos anos, uma aliança impensável entre setores do sionismo israelense e líderes evangélicos deu origem a uma iniciativa que, quando Trump assumiu a presidência dos Estados Unidos em 2016, teve um apoio decidido e explícito, embora discreto, por parte da Casa Branca.

De acordo com o projeto jornalístico Transnacionais da Fé – liderado pela Columbia Journalism Investigations (CJI) em conjunto com uma rede de 16 veículos midiáticos latino-americanos reconhecidos – desde o início da administração de Donald Trump, seu vice-presidente Mike Pence e o Secretário de Estado Mike Pompeo, ambos cristãos evangélicos, foram os principais promotores, ideólogos e desenvolvedores de um plano para a América Latina. Este projeto foi concebido a partir do novo Escritório de Fé e Oportunidade da Casa Branca, criado por Trump nos primeiros dias de seu mandato.

Seu principal aliado, também ideólogo e executor da estratégia, é o pastor evangélico Ralph Drollinger, diretor do Capitol Ministries, uma organização religiosa de estudos bíblicos, patrocinada pela Casa Branca trumpista.

Segundo a investigação citada, seu trabalho é “evangelizar” importantes líderes políticos, especialmente nos países do chamado Terceiro Mundo, com foco na América Latina, com o objetivo de fazê-los legislar de acordo com princípios bíblicos. Esta estratégia coincide com a geopolítica em relação à América Latina dos setores mais radicalizados do sionismo israelense.

Ao rastrear informações públicas, vemos que, até 2009, Drollinger era um pária dentro da comunidade evangélica, expulso de sua congregação por graves irregularidades. Mas como um mentor espiritual de Pence e Pompeo, com quem travou relações há cerca de dez anos, ele tem liderado esses chamados estudos bíblicos da Casa Branca desde o momento em que o vice-presidente o convidou para se estabelecer lá em 2016, de acordo com informações publicadas por Transnacionais da Fé.

A ofensiva ao sul do Rio Grande

Seguindo o fio da investigação mencionada, vemos que desde aqueles dias a ofensiva de Capitol Ministries estava aumentando com muito bons resultados na Nicarágua, onde o casal presidencial convidou a Drollinger para instalar seu centro de estudos. Enquanto em Honduras eles conseguiram convencer o Presidente Juan Orlando Hernandez a mudar a embaixada de seu país de Tel Aviv para Jerusalém.

No Brasil, através das igrejas evangélicas locais, Capitol Ministries conseguiu uma importante inserção nos setores relacionados ao Presidente Bolsonaro, cuja candidatura e administração têm sido apoiadas sem falhas até o momento.

Na Guatemala, uma delegação do Escritório da Fé composta de nada menos que 23 pastores especialistas em operações políticas, conseguiu mudar a posição do agora ex-presidente Jimmy Morales, que era contra a transferência da embaixada da Guatemala em Jerusalém, em troca de lhe permitir desmantelar a já desconfortável Comissão contra a Impunidade e Corrupção na Guatemala (CICIG), patrocinada pela ONU.

A defenestração daquela Comissão, contou com a aprovação e o silêncio cúmplice da Casa Branca, que até então, a tinha promovido, apoiado e financiado parcialmente. Este desmantelamento deixou Morales com paz de espírito, já que ele estava sendo investigado e prestes a ser acusado de vários atos de corrupção e abusos em todos os lugares.

Quem eles são, o que eles querem

De acordo com esta pesquisa, na estratégia evangélico-israelense, concebida a partir do Escritório da Fé, além do Drollinger, o Pastor cubano-estadunidense Mario Bramnick, fundador da organização de filiação cristã-sionista Coalizão Latina para Israel (LCI), com sede em Miami, tem um papel proeminente. Esta ONG tem como objetivo central o recrutamento de líderes políticos e religiosos latino-americanos em apoio ao reconhecimento de Jerusalém como a capital do Estado de Israel.

Capitol Ministries e o Escritório da Fé, discretamente, mantêm as identidades de seus principais líderes em sigilo. Os nomes de apenas alguns são conhecidos, incluindo Ralph Drollinger, Mario Bramnick e Michele Bachmann, ex-congressista dos EUA e fundador do grupo Tea Party na Câmara dos Deputados. Bachmann é membro da diretoria do Capitol Ministries e dirige pessoalmente um ministério na sede da ONU em Nova York, de onde ela promove uma visão de Israel segundo o Antigo Testamento.

A eles se junta o peruano Oscar Zamora, que atua desde 2017 como diretor para a América Latina do Capitol Ministries. Desde então, esta organização abriu ministérios em vários países da região: México, Honduras, Equador, Brasil, Peru, Uruguai, Paraguai, Costa Rica, Nicarágua e Panamá.

Fundamentalistas bíblicos

De acordo com o antropólogo James Bielo, professor da Universidade de Miami, os textos do Capitol Ministries respondem aos postulados do Protestantismo fundamentalista de que a Bíblia deve ser interpretada literalmente e que daí devem ser derivados os princípios para governar, respeitando essa leitura literal.

Enquanto Capitol Ministries expandiam seus ministérios ao sul do Rio Grande nestes quatro anos, os operadores do Escritório de Fé da Casa Branca trabalharam ativamente para alinhar as referências políticas da região com as agendas de Trump e do Primeiro Ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, para o Oriente Médio.

De acordo com informações analisadas por Transnacionais da Fé, “o Primeiro Ministro Netanyahu, também sob investigação por corrupção, é sem dúvida muito grato pelo trabalho dos evangélicos, com os quais ele se reúne frequentemente para coordenar quais ‘países evangélicos’ devem influenciar para apoiar a expansão do Estado de Israel em Jerusalém, de acordo com os mesmos conselheiros do Escritório de Fé da Casa Branca”.

*Tradução do espanhol por Maria Isabel Santos Lima

Foto do Palácio do Planalto em Foter.com / CC BY

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