A presidente do México, Claudia Sheinbaum, promove uma reforma para criminalizar vídeos falsos de autoridades públicas destinados a enganar e facilitar a prática de um delito. A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, solicitou à União Europeia o registro de sua voz como marca sonora. São tentativas de proteção contra os deepfakes: imagens, vídeos e áudios manipulados com inteligência artificial generativa para divulgar falsidades ou violência sexual, o que também alerta para uma forma cada vez mais sofisticada de violência política digital de gênero.
Trata-se de um fenômeno global, que se soma ao assédio, às ameaças, às campanhas de difamação, à falsificação de identidade, à divulgação não consentida de imagens íntimas e à desinformação baseada em gênero. As mulheres que lideram, concorrem a cargos ou expressam opiniões enfrentam uma violência específica e persistente nas redes sociais e plataformas, que não é equivalente em magnitude ou conteúdo àquela a que os homens estão expostos nas esferas de liderança. Isso não ocorre “apesar” de seu papel público, mas justamente porque elas o exercem. A tecnologia acelera, com quase total impunidade, uma violência patriarcal histórica, que tem como objetivos deslegitimar a presença coletiva das mulheres na esfera pública, punir sua visibilidade, minar sua autoridade, intimidar e expulsar suas vozes do debate público.
Reconhecer essa realidade é o ponto de partida de “A Candidata: O Custo Invisível da Participação”, campanha regional da IDEA Internacional e da Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento (AECID), lançada em 6 de outubro. Com dados, evidências e experiências de mulheres líderes e comunicadoras, a iniciativa transmite uma mensagem clara: a violência de gênero e a agressão digital não podem ser o preço a pagar pela participação na vida pública. Também não é justo que cada vítima enfrente sozinha os custos decorrentes disso: segurança, apoio psicológico, assessoria jurídica, tempo, reputação e impacto familiar e social.
Nas redes sociais, segundo um relatório do PNUD, uma em cada cinco mensagens dirigidas a mulheres com voz pública contém violência digital. Sete em cada dez defensoras de direitos humanos, ativistas, jornalistas e profissionais da mídia entrevistadas sofreram violência online durante seu trabalho, de acordo com dados da ONU Mulheres. E quatro em cada dez mulheres com funções públicas afirmaram se autocensurar para evitar novas agressões, segundo o relatório Tipping Point da ONU Mulheres. Entre as jornalistas, a autocensura aumentou de 30% em 2020 para 45% em 2025.
O que está em jogo é quem pode participar da democracia sem assumir um risco desproporcional à sua integridade e bem-estar. Cada mulher que abandona uma rede social, modera uma opinião por medo ou desiste de uma candidatura devido a ameaças representa uma perda coletiva. Normalizar essa desigualdade empobrece o debate e restringe a representatividade.
Evidências comparativas e estudos da IDEA Internacional mostram que a resposta penal é insuficiente. As estratégias mais promissoras combinam regulamentação, monitoramento digital, alfabetização midiática, cooperação entre autoridades eleitorais e plataformas, produção de dados, proteção e acompanhamento psicossocial. Mas nenhuma delas será suficiente se não se enfrentar o cerne cultural do problema: a resistência à presença de mulheres em espaços de poder.
Diante desse fenômeno, a IDEA Internacional propõe uma resposta integral. O primeiro passo é que os países definam com precisão a violência política digital de gênero e atualizem seus marcos legais de acordo com a Lei Modelo Interamericana para Prevenir, Sancionar e Erradicar a Violência contra as Mulheres na Vida Política.
Além disso, a corresponsabilidade deve deixar de ser mera retórica. Plataformas, partidos políticos, instituições públicas, mídia e sociedade civil precisam cooperar por meio de protocolos vinculativos, canais eficazes de resposta e mecanismos para preservar as evidências. A mídia também deve evitar que a busca por audiência transforme uma falsificação ou agressão viral em notícia sem contexto, multiplicando o dano e a vitimização.
Ao mesmo tempo, os países precisam de regras de governança digital eleitoral que reconheçam a violência de gênero e a desinformação como riscos centrais. Isso exige monitoramento especializado com enfoque de gênero para detectar padrões de assédio, campanhas coordenadas e ataques, acionar respostas precoces e produzir informações úteis. Nesse sentido, os órgãos eleitorais têm um papel fundamental. Muitos já compreenderam isso, mas é essencial que outros assumam proativamente iniciativas de informação e prevenção, além de monitoramento e sanção.
Também é indispensável fortalecer os canais de denúncia, atendimento e reparação, com respostas rápidas, acessíveis e interseccionais. Não se pode exigir que uma vítima documente sozinha uma agressão em massa enquanto conduz uma campanha ou exerce seu cargo. Fazer isso é um ataque ao equilíbrio na disputa eleitoral, um pilar fundamental de todo sistema democrático representativo.
Por fim, autoridades eleitorais, candidatas e líderes políticos precisam de alfabetização digital para reconhecer riscos e responder adequadamente. Detectar uma manipulação, reagir a tempo e comunicar sem amplificá-la já são capacidades democráticas essenciais.
As decisões de Sheinbaum e Meloni são um alerta oportuno. Não porque os deepfakes resumam toda a violência digital, mas porque mostram até onde ela pode chegar. A resposta deve se limitar a proteger quem já ocupa os cargos mais altos. O teste democrático será que uma mulher que inicia sua trajetória pública possa se expressar, discordar e competir sem que a tecnologia se transforme em uma arma para ocultar agressores que tentam silenciá-la.











