Há uma pergunta que deveria incomodar qualquer democrata, independentemente de sua orientação política: o que significa que a contestação injustificada do resultado eleitoral já não seja o grito do perdedor desesperado, mas o instrumento retórico de presidentes em exercício, de líderes com milhões de seguidores, de governos que, em vez de oferecer certeza, corroem as instituições por dentro? Algo mudou. E o que mudou não é a tecnologia.
O presidente Gustavo Petro semeou dúvidas sobre a tecnologia usada pela Registraduría Nacional del Estado Civil (RNEC) durante toda a campanha eleitoral. Especificamente, ele acusou a opacidade do código-fonte do software de apuração colombiano como evidência de manipulação eleitoral. O gesto não era novidade: a tecnologia eleitoral era acusada de obscura e inacessível. O que não era tão conhecido era de onde vinha a acusação. Não da oposição, mas do Palácio de Nariño. Não de quem concorre contra o governo, mas de quem o lidera.
O software eleitoral tem uma qualidade extraordinária para quem quer contestá-lo: sua complexidade técnica cria uma assimetria de compreensão que sempre favorece o acusador. Alegar que o código-fonte foi manipulado é simples, leva segundos e não requer nenhuma prova. Desmentir isso exige semanas de análises técnicas, relatórios de auditorias externas e comunicadores capazes de traduzir a informática para a linguagem do cidadão. Quando a refutação finalmente chega, a narrativa já está consolidada.
Esse princípio — a dúvida semeada não precisa ser comprovada — é a espinha dorsal de todas as narrativas de fraude tecnológica. Não se trata de provar nada. Trata-se de gerar desconfiança suficiente para que qualquer resultado adverso (ou não) possa ser interpretado como evidência de conspiração. As autoridades eleitorais passam a ser defensoras de sua própria inocência, em vez de garantidoras do processo.
O que torna especialmente relevante a análise do caso Petro não é sua singularidade, mas exatamente o contrário: sua pertença a um padrão que atravessa o espectro ideológico de ponta a ponta. A narrativa tecnológica da fraude não tem exclusividade ideológica.
Donald Trump construiu, em 2020, um dos episódios mais documentados de desinformação eleitoral da história recente com base em uma premissa central: as máquinas das empresas Dominion Voting Systems e Smartmatic teriam sido manipuladas para inverter o resultado. A afirmação foi desmentida por mais de sessenta tribunais, pelo próprio Departamento de Justiça de seu governo e pelos auditores independentes dos estados em disputa. Não é descabido considerar que a narrativa da fraude foi um elemento catalisador do assalto ao Capitólio em 6 de janeiro de 2021 e deixou milhões de cidadãos convencidos de que seu voto havia sido roubado por um algoritmo.
Jair Bolsonaro levou o argumento ainda mais longe: questionou a integridade das urnas eletrônicas brasileiras, um sistema que funcionava há décadas sem incidentes documentados e que havia sido o instrumento de suas próprias vitórias anteriores. A tecnologia que o tornou presidente foi, quando perdeu, a tecnologia que o traiu.
Petro se situa nos antípodas ideológicos de Trump e Bolsonaro, mas a narrativa da fraude é transversal. É o sinal de um recurso político que funciona independentemente da orientação de quem o emprega.
Além do episódio concreto, essas narrativas produzem danos institucionais que se medem em anos ou décadas, não em semanas. O primeiro e mais evidente é a erosão da confiança na democracia eleitoral como mecanismo legítimo de alternância.
O segundo dano é menos visível, mas igualmente grave: a dificuldade de modernizar os sistemas eleitorais no futuro. Se o código-fonte é suspeito hoje, será amanhã. Se as urnas eletrônicas são fraudulentas na derrota, os órgãos eleitorais terão cada vez menos margem para introduzir inovações tecnológicas que poderiam melhorar a transparência, a acessibilidade e a eficiência do processo.
O terceiro dano é a normalização do não reconhecimento como opção política viável. Cada vez que um líder relevante contesta um resultado sem provas e sem consequências, o limiar para fazê-lo volta a baixar.
Nos últimos anos, surgiram precedentes judiciais concretos que demonstram que as democracias podem, quando têm vontade institucional, estabelecer consequências reais para quem difunde narrativas de fraude sem fundamento.
O primeiro e mais contundente desses precedentes é o de Jair Bolsonaro no Brasil. Em junho de 2023, o Tribunal Superior Eleitoral o inibiu de exercer cargos públicos até 2030 por ter convocado dezenas de embaixadores estrangeiros — em uma reunião oficial, transmitida pela televisão pública — para semear dúvidas infundadas sobre a integridade das urnas eletrônicas. O tribunal documentou que o ex-presidente havia cometido “abuso de poder político” e a divulgação deliberada de um “discurso violento e mentiras” que colocaram “em risco a credibilidade da justiça eleitoral”.
O segundo precedente é de outra natureza, mas igualmente revelador: o caso Fox News contra a Dominion Voting Systems nos Estados Unidos. Após as eleições de 2020, a emissora Fox News divulgou ativamente a narrativa de que as máquinas dessa empresa haviam sido manipuladas para alterar o resultado em favor de Joe Biden. A Dominion processou a emissora por difamação, reivindicando uma indenização de 1,6 bilhão de dólares. O processo revelou algo ainda mais perturbador do que a própria desinformação: em mensagens internas, os próprios apresentadores e executivos da Fox reconheciam que as alegações de fraude eram falsas, mas as divulgavam de qualquer maneira por motivos comerciais, para não perder audiência. Em abril de 2023, o Tribunal Superior de Delaware determinou que nenhuma das declarações da Fox News sobre a Dominion era verdadeira. Diante da perspectiva de um julgamento que expusesse essa hipocrisia interna, a emissora concordou em pagar 787 milhões de dólares para evitar chegar ao tribunal.
Esses dois casos apontam na mesma direção. A primeira linha de resposta institucional é, precisamente, que a impunidade não seja a norma. Quando a narrativa da fraude tecnológica se espalha sem custos — jurídicos, políticos ou de reputação —, ela se torna um recurso gratuito. Quando gera consequências reais, o cálculo muda.
A Colômbia deverá tomar medidas para que o custo da desinformação seja suficientemente alto para que os atores políticos pensem duas vezes.
Tradução automática revisada por Isabel Lima










